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Rui Ramos

Sinónimo de distracção

O pós-socratismo não será fácil. Sem Sócrates como tema de conversa, seremos forçados a falar do verdadeiro problema: o nosso modo de vida. Os portugueses terão de optar: ou prosseguimos o declínio económico e social ou trabalhamos para mudar de vida.

Rui Ramos (www.expresso.pt)

Há uns anos, um filme com Sean Penn ensinou-nos que nas prisões americanas se grita "dead man walking" quando um condenado é levado à execução. Não sei se alguém já se lembrou de gritar o mesmo à passagem de José Sócrates nos corredores do nosso poder. Seria talvez um caso de mau gosto, mas não de exagero. Há ainda, no entanto, dois erros que todos podemos cometer a propósito deste defunto ambulante.

O primeiro diz respeito à causa do óbito. O situacionismo, pelas suas variadas bocas, não quer vislumbrar mais do que uma questão de 'personalidade'. É uma miopia muito conveniente para quem nada quer mudar a não ser nomes. Só que o grande problema de Sócrates não é o 'Freeport' ou a 'Face Oculta', mas outra coisa: o fracasso da ideia de fazer crescer o país, num contexto de união monetária europeia, através do investimento público em educação e em infra-estruturas. Foi esse o roteiro que Sócrates perfilhou em 2005. Por isso, nunca teve alternativa na oposição, já que desde a década de 1990 que o regime, da direita à esquerda, não quer seguir outro caminho. O projecto falhou com ele, que talvez seja um pecador, como teria falhado com outro, mesmo se fosse um santo. Se Sócrates, segundo os seus inimigos, tem dificuldade em lidar com a 'verdade', a restante classe política não mostra menos dificuldades em lidar com a 'verdade' do fracasso de Sócrates.

O segundo erro consiste numa tentação: aproveitar o facto de o morto ainda andar - para o pôr a andar por conta de outrem. A súbita abnegação patriótica da classe política, mais uma vez da direita à esquerda, é revelador: ninguém deseja adicionar outra crise à que já há; todos se dispõem a deixar Sócrates chegar ao fim do 'ciclo'. Não se trata apenas de esperar que o Governo caia por si. A semana passada, num assomo de sinceridade, António Pires de Lima veio aqui confessar o esquema. Sócrates ficaria no Governo, como uma espécie de títere de faxina, para limpar a casa até aos 3%. Só então a oposição apareceria para reclamar as chaves e fazer-nos o grande favor de começar a sua obra de reforma. Em suma: a boa moeda recusa-se a voltar e quer obrigar a má moeda a continuar em circulação. Não duvido das boas intenções. Mas o resultado seria termos, nos próximos anos, uma política resumida a transacções técnicas de bastidores, como as do último Orçamento, e uma governação anónima e de responsabilidade limitada. Acreditam que é assim que se criaria ambiente para a tal reforma, se é esse o objectivo?

O pós-socratismo não será fácil. Sem Sócrates como tema de conversa, seremos forçados provavelmente a falar do verdadeiro problema: o nosso modo de vida. Os portugueses terão de optar: ou tapamos apenas os buracos maiores e prosseguimos o declínio económico e social, talvez sob tutela europeia, como uma espécie de Kosovo financeiro; ou rompemos com 'isto' e trabalhamos para mudar de vida. O Governo de que o país precisa é aquele que o obrigue a dizer finalmente o que quer. Até pode ser 'isto', por não poder ser outra coisa - mas convém-nos saber de uma vez por todas.

Texto publicado na edição do Expresso de 20 de Fevereiro de 2010