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Inês Pedrosa

Mr. Hitchens e os sonsos

O Médio Oriente de Christopher Hitchens não é "cosa mentale". É mesmo muito real e actual.

Inês Pedrosa (www.expresso.pt)

Os sonsos são o grande problema do mundo contemporâneo. Nunca dizem ao que vêm. Sorriem-nos pela frente e esfaqueiam-nos pelas costas. Os mais espevitados deles (custa-me dar-lhes a dignidade da palavra "esperto") conseguem fazer os esfaqueamentos por interposta pessoa, de modo a nunca serem apanhados. Adaptam-se a tudo. São omnívoros. Rastejantes. Sobreviventes puros. Para nossa desgraça - mas não só nossa - reproduzem-se com maior celeridade nos países pequenos, onde a tradição protege os cobardes.

Vem deles a difícil relação que Portugal tem com a liberdade de expressão. Uma no cravo, outra na ferradura - e muito diz-que-não-disse para confundir a populaça. Christopher Hitchens, um dos mais destacados ensaístas do nosso tempo - autor de um fabuloso livro sobre George Orwell ("Why Orwell Matters") ainda não publicado em Portugal, e de "Deus Não É Grande - Como a Religião Envenena Tudo", publicado pela Dom Quixote - estranhou a falta de perguntas incómodas ou comentários críticos, no fim da conferência que deu em Lisboa, há dias. Recebeu muitos elogios, muitos pedidos de esclarecimento - mas ninguém lhe perguntou, por exemplo, porque é que defendeu e defende a intervenção americana no Iraque. Acabou por responder a essa questão não formulada, aproveitando uma pergunta - uma só - com nó na ponta sobre o Irão: "Se queria chegar à minha posição sobre o Iraque, porque não começou por aí?" E acrescentou: "Podem perguntar o que quiserem. Eu tenho por princípio não sair de nenhuma conferência sem responder claramente a todas as perguntas que me queiram fazer. Absolutamente todas." Para ele, o facto de existirem ou não armas químicas no Iraque era supletivo - do mesmo modo que lhe parece urgente que se trave o Irão antes que as armas nucleares estejam prontas.

O Médio Oriente de Hitchens não é cosa mentale - esteve inúmeras vezes no Iraque, no Irão, em Israel e na Palestina, e diz, com visível orgulho, que a sua sobrinha está agora a combater no Afeganistão. A condenação à morte que estragou a vida do seu amigo Salman Rushdie, ou as ameaças que limitam os movimentos da sua amiga Ayaan Hirsi Ali, não são coisas teóricas para este erudito apaixonado pela realidade das pessoas, que desistiu há muito de ver televisão e filmes de Hollywood. Hitchens não consegue encarar a excisão ou a humilhação contínua das mulheres como uma singularidade cultural nem a redução de uma população à escravatura e ao medo como fatalidade alheia. Continua a utilizar os instrumentos de análise e a dialéctica marxista e a pensar que o sol deve brilhar para todos. Não se encosta ao multiculturalismo fashion da cobardia organizada. Por isso, não teme perguntas. E diz-se disposto a morrer pelo sagrado direito à liberdade.

Em Portugal, comenta-se muito em surdina e pergunta-se pouquíssimo, de olhos nos olhos. Em Inglaterra, segundo Hitchens, também é assim. Por isso, este inglês emigrou há muitos anos e em definitivo para os Estados Unidos da América. Tem saudades do seu amigo-irmão Martin Amis, das horas infinitas de tertúlia num bar de Bloomsbury, ao lado da casa de Dickens - mas de nada mais. Na arrogância da ilha tinha dificuldade em tornar-se o escritor que queria ser, diz ele. Em primeiro lugar, porque na velha Inglaterra só é considerado escritor quem o clube dos literatos decide que pode ser. E esse clube não gosta de nada que seja diferente do que aquilo que já conhece - e não gosta, acima de tudo, de competição. Não gosta de gente que escreve nos jornais e cai na asneira de escrever de modo a poder ser lido. Na América, pelo contrário, a originalidade e a capacidade de comunicação não são antagónicas. O peso das expectativas prévias ou da falta delas, dos estereótipos familiares, de raça ou de género, não existe. É essa aceitação imediata do novo, essa disponibilidade para a ousadia de pensar ou empreender que os portugueses sentem no Brasil - e que é praticamente inexistente em Portugal. Portugal dá poesia, ficção, música e cinema, apesar dos sonsos, porque apesar de tudo estamos numa Europa sem fronteiras e os sonsos locais não conseguem tapar os olhos ao mundo inteiro - mas não dá filosofia. O vendaval das ideias é abafado à nascença pelos biombos do certo e do errado definidos de um modo insidioso, através da repressão dos instintos e das iluminações. É só nisso que os sonsos são bons.

Texto publicado na edição da Única de 27 de Fevereiro de 2010