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Expresso

Henrique Raposo

Obama é Huntington

Havia uma lenda que rezava assim: Obama ia mudar a América e o mundo com valores progressistas. A lenda estava 50% correcta. Obama está mesmo a mudar as coisas, mas com valores conservadores.

A turbulência política no Irão tem sido um pretexto para a América reflectir sobre o seguinte: deve Washington interferir na política interna das ditaduras? Neste debate, os neoconservadores criticam a forma como Obama tem lidado com a revolta popular no Irão. Obama, dizem esses críticos, tem sido demasiado realista, e, por isso, tem desprezado os manifestantes persas. Obama, de facto, não esboçou um apoio total aos manifestantes. Ainda bem. Os EUA não devem interferir na política interna das ditaduras. O problema de Bush era precisamente esse: a mania idealista de dar lições morais, sem pensar nas implicações desse moralismo. Obama é menos idealista do que Bush e, nesse sentido, o tal new beginning de Obama representa um cínico regresso ao realismo. Óptimo. Podemos até dizer que Obama se aproximou do pensamento de Samuel Huntington (1927-2008). O autor de "O Choque das Civilizações" (Gradiva) errou em muita coisa, mas estava certo na crítica à arrogância do universalismo democrático. Perante a actual situação no Irão, Obama recusou embarcar no moralismo autocomplacente da Era Clinton/Bush. Se fizesse um discurso heróico de apoio aos jovens iranianos, Obama estaria apenas a projectar a sua vaidade moral no espelho persa. No Irão, esse discurso só facilitaria a vida aos ayatollahs, que usariam o dito discurso para reforçar a tese de que os reformadores iranianos são fantoches ocidentais.

Além de combater o universalismo que os neoconservadores queriam impor ao mundo, Huntington lutou contra o relativismo que a esquerda multiculturalista queria impor à América. Neste ponto, Obama também é 'huntingtoneano'. Obama simboliza uma América pós-racial. Não podemos definir Obama como afro-americano. Obama é americano. Sem o hífen multiculturalista. E esta destruição do multiculturalismo às mãos de Obama é ainda mais evidente quando observamos o amor do novo Presidente pelos valores tradicionais (patriotismo, Deus, família). Obama está a exterminar o relativismo moral da esquerda, e, ao mesmo tempo, está a disputar os votos conservadores com os republicanos.

O messias negro tem fama de progressista, mas é, na verdade, um portentoso conservador.

Anti-Guterres

Durante o seu reinado, Sócrates seguiu um lema: ser o anti-Guterres. A teimosia (insuportável) do 'PS Sócrates' foi desenhada para contrastar com a moleza (insuportável) do 'PS Guterres'. E existe ainda outro ponto que distingue Sócrates de Guterres: Sócrates não vai fugir.

Sócrates foi incapaz de reformar o Estado Social, e deu uns valentes tiros no porta-aviões das liberdades. Porém, apesar deste fraco currículo, Sócrates merece uma menção honrosa. Porquê? Porque vai submeter-se ao teste da reeleição. Isto não acontece desde 1999. Há dez anos que os primeiros-ministros de Portugal não se submetem ao escrutínio fundamental: permitir que os eleitores recusem a sua continuidade no poder. Neste regime, aquilo que deveria ser a normalidade é uma excepção.