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Expresso

Henrique Raposo

O czar do Rato

A nossa cultura política tem coração eslavo. A jugular lisboeta traz sangue ideológico directamente das estepes russas. Os nossos líderes, meu caro leitor, são parecidíssimos com o czar Putin. Tal como Moscovo, Lisboa desconhece a grande invenção do pensamento ocidental. Que invenção é essa? A distinção entre 'Poder' e 'Verdade'. Para existir liberdade, o Poder e a Verdade têm de ser duas variáveis distintas. A liberdade depende da existência de um largo abismo entre o Poder - a imanência histórica - e a Verdade - a transcendência ética que não é propriedade de ninguém; ou seja, no país Y, durante a época X, o político Z não pode controlar os caminhos da Verdade. Portugal, à semelhança da Rússia, sempre recusou esta revolução intelectual. Em Lisboa, o Poder sempre foi sinónimo de Verdade. E o 25 de Abril não mudou nada, não retirou o país desta cultura eslavófila.

José Sócrates é a mais recente manifestação deste velho czarismo alfacinha. Ao longo do reinado do czar do Rato, encontramos um padrão de atitudes contrárias à liberdade de expressão: este Governo inventou a ERC, os 'socratetes' não toleram o telejornal de Moura Guedes, Sócrates vai processar jornalistas, etc. Parece evidente que o nosso mui ilustre czar não sabe lidar com a crítica. Sócrates não consegue conceber a existência de uma opinião que ponha em causa a sua verdade.

Este reduzido à-vontade de Sócrates perante a crítica não resulta do seu lendário mau feitio. Isso é um mito. Esta incapacidade para encaixar a dissidência nasce, isso sim, da natureza do actual PS. 'Este' PS afirma, vezes sem conta, que Portugal só é governável com o PS no poder.

Podemos até dizer que os nossos socialistas fazem fogueiras em redor deste lume apocalíptico: PS ou barbárie! 'Este' PS vê-se como o partido predestinado a governar, pois autopercepciona-se como o ponto de equilíbrio entre a ilegitimidade do esquerdismo (PCP e BE) e a ilegitimidade do reaccionarismo (CDS e PSD). Aos olhos dos 'socratetes', apenas o PS é legítimo. Imerso nesta narrativa de auto-indulgência, o PS socrático não tem estômago para críticas. "Como é que as pessoas se atrevem a duvidar da bondade intrínseca do PS?", eis a pergunta que os 'socratetes' fazem no seu íntimo.

Esta arrogância socialista é um reflexo da velha tradição portuguesa que transforma a Verdade numa marquise do Poder. O PS não se concebe como um partido igual aos outros. O PS acha que é a Verdade do regime. O PS julga que é o senhorio da III República (os outros partidos são apenas inquilinos). Como é óbvio, os socialistas que vivem neste caldo têm dificuldades em aceitar críticas. E acabam por pensar que os tribunais são apêndices czaristas que servem para impor a Verdade do Poder a quem recusa associar a Verdade ao Poder.

Tempo livre

Numa democracia a sério, todos os políticos são criticados sem misericórdia. Numa sociedade livre, a Manuela Moura Guedes é a normalidade, e a Fátima Campos Ferreira a anormalidade. O facto de Sócrates prestar tanta atenção aos jornalistas quer dizer uma coisa: o nosso primeiro-ministro tem demasiado tempo livre. A III República não é uma democracia a sério.

Henrique Raposo