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Expresso

Henrique Raposo

O cerco moralista

O nosso modo de vida - assente no estado social e no crédito fácil - está falido; o nosso Estado de Direito é uma ficção. Estas são as duas parcelas que compõem a fórmula da nossa realidade. Porém, estes temas não provocam debates acalorados na sociedade portuguesa. Hoje em dia, apenas um tema gera polémica acesa; apenas um tópico leva as pessoas a empenharem-se realmente a fundo no debate de ideias; apenas um assunto é capaz de revelar reais diferenças de opinião na elite portuguesa. Que assunto é esse? O casamento gay, como é óbvio.

Portugal só aquece politicamente para discutir a esfera íntima do 'sujeito privado' (aborto, eutanásia). A esfera do 'cidadão público' é debatida com evidente fastio e sem grandes diferenças de opinião. Quando o assunto é o Estado e a economia, Portugal deixa-se dominar por um consenso mais ou menos socialista. Mas quando o assunto é o aborto ou a eutanásia, ah, então sim, já temos divergências ideológicas. Isto acontece porque o nosso debate político vive cercado por duas forças 'apolíticas': a esquerda anticlerical e a direita reaccionária. Estas duas forças (as únicas que temos?) apenas debatem temas moralistas relativos ao 'sujeito privado'. A esquerda anticlerical avança com as "causas fracturantes", e, na hora marcada, a direita reaccionária aparece para formar a falange dos "bons costumes".

Jacobinos e reaccionários lutam pela posse da intimidade dos portugueses; lutam pela hegemonia da 'moral privada' de Portugal. E, depois, terminado o duelo moralista, estas duas tribos tornam-se siamesas inseparáveis nos assuntos políticos e económicos realmente determinantes. Não por acaso, a Igreja Católica e a esquerda têm lançado os mesmíssimos ataques contra o tal "paradigma neoliberal". Às vezes, até tenho a impressão que os bispos são hologramas negros de Francisco Louçã. Ou será Louçã um holograma vermelho dos bispos?

Rubem Fonseca

Em "O Capitalismo Será Moral?" (Editorial Inquérito), André Comte-Sponville diferenciou três ordens de pensamento: a ordem do possível, a ordem da legalidade e a ordem da moral. Usando esta grelha do filósofo francês, percebemos melhor o encanto seco de Rubem Fonseca. No livro de contos "Ela e Outras Mulheres" (Campo das Letras), este escritor brasileiro descreve os homens e as mulheres apenas no campo da possibilidade. Um homem pode ser torturado por dois homens? Sim, é possível. Então, Rubem Fonseca descreve este acto (e outros muito piores...) com uma frieza glaciar. Fonseca descreve actos horrendos, mas nunca adjectiva esses actos, ou seja, nunca entra na ordem moral e na ordem legal.

Os códigos legais e morais - os factores que distinguem o universo humano do universo animal - são aqui abolidos. É esta amoralidade não-humana que transforma Rubem Fonseca num autor fascinante. E reparem numa coisa: Fonseca está no campo da amoralidade e não da imoralidade. Fonseca assume-se como uma câmara que vai filmando o horror como se não soubesse o que é o horror. Fonseca é um extraterrestre que descreve actos humanos sem o conhecimento dos códigos que permitem julgar esses mesmos actos.

A escrita de Fonseca é um notável mundo sem adjectivos.

Henrique Raposo