Siga-nos

Perfil

Expresso

Henrique Raposo

Ir além do TGV: Sines

Aqueles que defendem o TGV têm sempre o mesmo argumento. O TGV, dizem, é uma forma de contornar a eterna fraqueza de Portugal: a posição periférica. Portanto, o TGV, nesta lógica, é uma espécie de aditivo geográfico que vem colmatar o nosso raquitismo periférico; o TGV é visto como um cordão umbilical metalizado que ligará, finalmente, Portugal à Europa. A 'Alta Velocidade', oh milagre!, surge assim como a cura para a nossa lepra geográfica.

Como não acredito em milagres, gostava de fazer uma pergunta: e se a nossa posição 'periférica' não representar uma fraqueza? E se a nossa latitude constituir, afinal, uma vantagem que os nossos governantes míopes não conseguem enxergar? Meus caros, quem é vizinho do Atlântico nunca é periférico. O nosso país, se for esperto, pode aproveitar o seu lugar no mapa. A geografia não é destino. A geografia só é lepra se os países forem politicamente ineptos. Portugal não está destinado a ser o leproso geográfico da Europa. Aliás, a nossa geografia tem as condições para fazer um lifting no rosto de Portugal. E o cirurgião plástico, meus caros, dá pelo nome de Sines.

As próximas eleições legislativas ameaçam transformar-se num referendo ao TGV ('sim' do PS versus 'não' do PSD). Isso é muito poucochinho. Temos de colocar questões realmente estratégicas - como Sines - em cima da mesa. Pensar Portugal sem mencionar Sines é como pensar a Holanda sem referir Roterdão. O porto de Sines é o maior porto de águas profundas da Europa. Este porto mui alentejano pode competir com as 'Roterdões' lá de cima. Para um navio oriundo da América ou da Ásia, Sines fica mais à mão do que Roterdão. Quando pensamos nisto, percebemos que a importância de Sines é incomensuravelmente superior à do TGV.

O projecto do TGV tem uma lógica defensiva, típica do Portugal pequenino que tem medo de parecer periférico aos olhos da Dona Europa. No fundo, a defesa do TGV assenta neste argumento medroso: "Temos de levar Portugal até à Europa". Meus caros, já chega deste Portugal. Precisamos de pensar de forma ofensiva. Temos de fazer com que a Europa venha até nós, usando Sines para esse efeito. O porto de Sines pode ser a porta da Europa. Neste sentido, seria mais inteligente apostar num comboio de mercadorias de 'Velocidade Alta' (uma espécie de Alfa operário) que ligasse Sines a Madrid. Esta 'Velocidade Alta' de mercadorias seria mais útil do que a 'Alta Velocidade' de passageiros entre Lisboa e Madrid.

O TGV é uma mania sem valor acrescentado. O comboio operário entre Sines e Madrid, isso sim, é uma mais-valia estratégica, que pode colocar Sines no centro da Europa. E, já agora, convinha reinvestir no aeroporto de Beja, que poderia funcionar como o Sancho Pança aéreo do nosso D. Quixote marítimo, o porto de Sines.

Que regime é este?

Paulo Mota Pinto é o responsável pelo programa eleitoral do PSD. Mota Pinto já foi juiz do Tribunal Constitucional (TC). António Vitorino é o responsável pelo programa eleitoral do PS. Vitorino já foi juiz do TC. Que regime é este que transforma o TC num trampolim para a carreira política de militantes do PSD e do PS?

Henrique Raposo