Siga-nos

Perfil

Expresso

Henrique Raposo

Escadinha autoritária

Esta é a crise dos meninos mimados. Os ocidentais viveram seis décadas de prosperidade, e agora não sabem o que fazer perante o colapso do fundo arenoso do idílio. Entre 1945 e 2008, os mimos da História incapacitaram o Ocidente para lidar com mudanças. Andamos histéricos, porque não admitimos um milímetro de mudança no nosso modo de vida.

Paira no ar uma pressa quase infantil. Toda a gente quer resolver a crise num ápice. E é inquietante ver este alvoroço. A crise tem apenas alguns meses, mas os nossos políticos afirmam que já têm a solução. Que solução é essa? Injectar dinheiro em tudo o que mexe. Com estas faraónicas injecções, os governos pretendem recolocar os seus países no 'antes' da crise. É como se quisessem acordar do pesadelo e teletransportar as pessoas para a velha vidinha de consumo desenfreado baseado no crédito bancário. Mas isso não vai suceder. Porque esse modo de vida morreu. A verdade é que nenhum político teve ainda a coragem de enfrentar a causa profunda da crise: o modo de vida assente no crédito ao preço da uva mijona.

Esta fuga para a frente revela que as nossas sociedades não toleram um mínimo de incerteza. Não aceitamos escolher entre vários futuros alternativos. Não toleramos que o idílio 'eterno' (1945-2008) dê lugar a outra coisa qualquer. Ora, esta incapacidade para encaixar a incerteza em relação ao futuro foi sempre o primeiro degrau da escadaria autoritária. O fascismo e o comunismo não nasceram do coração de alguns homens maus. Isso é uma 'estória' de embalar sem correlação com a História. As forças autoritárias do século passado nasceram, isso sim, do coração de milhões de homens normais que não suportaram a angústia da escolha numa época de crise. Fascistas e comunistas prometeram a estes homens um futuro previsível que os libertava do fardo da escolha.

A ânsia que marca o ar do nosso tempo comprova - mais uma vez - que existirão sempre pessoas sem estômago para suportar a incerteza provocada pelo acto de escolher. A besta nasce desta revolta contra a angústia que acompanha o livre arbítrio.

'Decide'

Um filme desequilibrado pode ter momentos memoráveis. É assim com o "Reino dos Céus", de Ridley Scott (agora em DVD). No meio deste épico semifalhado, a personagem de Eva Green - a princesa de Jerusalém - dardeja o espectador com este portento teológico: "O profeta diz 'Submete-te'; Jesus diz 'Decide'".

O Ocidente foi construído em redor do livre arbítrio. Mas, atenção, nem tudo são rosas nesta história. A liberdade tem um preço: a angústia da escolha. Não por acaso, o Islão foi edificado para combater essa angústia. O muçulmano não decide, submete-se; na submissão, perde liberdade mas fica sem angústias. Afinal, tomar uma decisão custa muito. Dói. Mas, meus amigos, essa dor é o preço da liberdade, e eu prefiro ser um angustiado livre. Recuso a servidão aliviada. No século passado, quando recusaram a angústia da escolha, os europeus abriram caminho à entrada de regimes políticos 'islâmicos' no coração da Europa. Cuidado, portanto, com a pressa em resolver a crise. A angústia que sentimos não vai passar com subsídios. Não se submetam ao profeta estatal.

Henrique Raposo