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Expresso

Henrique Raposo

Colmeia de hipocondríacos

Há quem diga que vivemos tempos ímpios. Não concordo. Nas actuais narrativas ocidentais, encontramos sempre desejos apocalípticos. A narrativa que controla a maneira como os ocidentais vêem o mundo - o 'aquecimento global' - necessita de uma permanente ameaça bíblica: o dilúvio provocado pelo degelo do Árctico. Depois, a narrativa que controla a forma como os ocidentais olham para o interior das suas próprias sociedades - a 'saúde pública' - emite constantes alertas apocalípticos, tal como aquele que foi lançado esta semana a propósito da gripe suína. Ao que parece, no cabaz dos apocalipses televisivos, há sempre um vírus capaz de dizimar as populações mais bem alimentadas e medicadas da história. Se isto não é religioso, é o quê?

As nossas sociedades não toleram a existência de Deus ou de qualquer noção de Ética transcendente. Cristo e Kant encostaram às boxes. A imanência do corpo passou a ser o único templo possível. É por isso que a doença é o centro vital das nossas sociedades, tal como o pecado era o centro das sociedades do antigamente. As pessoas queriam salvar a alma do pecado; hoje querem salvar o corpo da doença. O Ocidente era uma civilização de pecadores; agora é uma colmeia de hipocondríacos. E o exemplo português ilustra bem esta metamorfose. Algures no século XIX, o governo de Lisboa, alegando evidentes razões sanitárias, decidiu que os mortos não podiam ser enterrados nas igrejas. O povo protestou. A fé estava acima da saúde. Hoje, na ausência de Deus, o povo entrega-se à saúde, e derruba ministros, porque quer um hospital à porta de casa. O hospital, aliás, é a nova igreja. Em 2009, o povo visita o médico tal como visitava o padre em 1909.

Esta histeria em redor das gripes apocalípticas é apenas o zénite de algo que existe todos os dias. O nosso quotidiano é controlado por um fascismo hipocondríaco. Não podemos fumar. Não podemos comer pão com sal. Temos de fazer desporto. Só podemos ter um parceiro sexual. Nesta atmosfera hipocondríaca, a doença é vista como uma consequência de maus hábitos e não como uma condição normal. De forma incompreensível, as nossas sociedades assentam no pressuposto absurdo de que a doença é uma escolha pessoal e não uma inevitabilidade biológica. As abelhinhas hipocondríacas vivem na ilusão de que o monogâmico-comedor-de-saladas não apanha doenças.

No campeonato da fé, sou do Belenenses, isto é, sou inofensivo. Sou agnóstico. Não tiro senha na barraquinha teológica. Não participo em fezadas monoteístas. Mas, tendo em conta a penumbra apocalíptica que paira por aí, apetece-me dizer que a malta devia regressar às igrejas. Se querem rezar, então rezem como deve ser: com padres e não com médicos.

Droit

Em 'O que é o Ocidente?' (Gradiva), Roger-Pol Droit apresenta a tese certa. Em primeiro lugar, Droit afirma que o termo 'Ocidente' já não descreve apenas a comunidade transatlântica. O Ocidente alargou-se a outros países (Japão, Coreia do Sul, etc.), que partilham uma 'direcção de espírito' com a Europa e EUA. Em segundo lugar, Droit critica os relativistas que negam a existência dos valores universais defendidos pelo Ocidente.

Henrique Raposo