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Henrique Raposo

Aparece, anjo bom

Henrique Raposo (www. expresso.pt)

Caríssimo militante do PS, eu ando com uma inquietação que gostava de partilhar consigo. Esta inquietação é, no fundo, uma triste sucessão de perguntas: ainda existem anjos bons lá para os lados do Largo do Rato? Será que o PS está reduzido ao círculo mais restrito do 'socratismo'? Será que o PS está mesmo no bolso de José Sócrates, Augusto Santos Silva e Silva Pereira? Será que o PS do famoso antifascismo não sente vergonha por tudo aquilo que veio a público na última semana? O PS, o suposto pai da III República, não sente um incómodo frio e nervoso no estômago? Eu quero acreditar que sim. Eu quero acreditar que o PS, o verdadeiro, está incomodado. E, acima de tudo, eu quero acreditar que o bom PS tem a força e a vontade para derrotar o 'socratismo'. Agora. Já. Amanhã. Eu quero acreditar que, num canto escondido do Largo do Rato, há um Lincoln socialista com uma horda de better angels no seu ombro. Aparece, anjo bom do PS!

Meu caro anjo, para sair incólume desta crise, Sócrates só tinha duas hipóteses: ou dizia que o "Sol" e o "Correio da Manhã" fabricaram mentiras para o difamar, ou dizia que Paulo Penedos e Rui Pedro Soares mentiram quando colocaram o seu nome no meio da conspiração que atentou deliberadamente contra a liberdade de expressão. Sócrates não fez nada disto. Sócrates não desmentiu os factos. Repito: o primeiro-ministro de Portugal não desmentiu os factos. Sócrates atacou o "jornalismo de buraco de fechadura" (a nova versão do "jornalismo de sarjeta"), refugiou-se em formalismos legais (segredo de justiça), em fracos truques semânticos (conhecimento 'informal' vs. conhecimento 'formal') e na farsa da "conversa privada". Não, aquelas não são conversas privadas. A vida privada de um primeiro-ministro não contempla conspirações que visam controlar grupos de comunicação social. Ora, perante esta resposta inadequada do primeiro-ministro, o regime tem de forçar Sócrates a curvar-se perante a deusa que não tem tradução: accountability. Sócrates deve ser inquirido publicamente (no Parlamento, na ERC); Sócrates tem de ser confrontado com os factos que doem e com as contradições que desesperam o país: por que razão mentiu Sócrates ao parlamento sobre o caso PT/TVI (tal como noticiou este jornal logo no Verão)? Se não tinha conhecimento 'formal' do negócio PT/TVI, por que razão tinha Sócrates um conhecimento 'informal' do dito negócio? Se Sócrates não se deixar submeter a este rigoroso inquérito, então, alguém tem de demitir o primeiro-ministro. E seria bom que o PS fosse a fonte dessa tarefa. Aparece, anjo bom do PS!

Meu caro anjo, este PS 'socrático' não honra os pergaminhos do velho PS. Meu caro anjo, eu sinto medo quando constato que, perante a tua complacência, o meu país está nas mãos de três indivíduos que têm sérios problemas para compreender as regras de uma sociedade livre: Sócrates, Santos Silva e Silva Pereira. O país, a III República e o próprio PS estão reféns desta clique. Esta é uma situação intolerável, meu caro. O ar tornou-se sulfúrico, o chão está a ficar enlameado, e a água é pantanosa. E tudo isto aconteceu devido à tua inacção, caro anjo adormecido. Eu sei que a realidade está empestada por lúciferes das mais variadas espécies, mas também acredito que, em momentos de aflição, os better angels of our nature de Lincoln aparecem. Aparece, anjo bom!

Texto publicado na edição do Expresso de 13 de Fevereiro de 2010