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Expresso

Henrique Raposo

A falência do socialismo

Esquerdistas e reaccionários têm passado os dias a proclamar a morte do liberalismo. Nada de novo, portanto. Há mais de duzentos anos que a esquerda e a reacção partilham o ódio em relação à sociedade liberal. Mas há um pequeno problema com esta fábula 'reaço-esquerdista': a realidade. Na dita realidade, descobrimos que a crise financeira não está a destruir o liberalismo, mas sim o socialismo e o socialismo beato (i.e., a democracia cristã).

As recentes intervenções estatais nas economias não representam a negação do ideal liberal. A noção de que o liberalismo implica a anulação do Estado é uma absurda simplificação ideológica. A sociedade liberal é uma dança entre duas peças inseparáveis: o estado liberal e o mercado. Neste tango de Adam Smith, a esbelta mão invisível do mercado enrola-se na mão-de-ferro do estado, e vice-versa. A crise actual representa uma refundação desta milonga escocesa. Por outras palavras, o ritmo da dança vai ser alterado através da introdução de novas regras financeiras. O tango liberal, meus caros, não está a acabar; está apenas a mudar de ritmo. E esta não será a primeira nem a última alteração do compasso liberal.

A partir de agora, vamos ter um capitalismo descafeinado. É nesta desaceleração do tango capitalista que reside o problema para a democracia-cristã e para o socialismo. Os estados socialistas e democrata-cristãos que marcaram a Europa continental durante as últimas décadas dependiam de um factor: o crédito barato concedido pelos mercados internacionais. Ou seja, o socialismo local foi apadrinhado pelo capitalismo global. Ora, a actual crise financeira fechou a torneira do crédito barato. Isto significa que o socialismo e a democracia-cristã já não podem financiar a sua megalomania estatal.

Para Portugal, este ponto tem uma implicação imediata: o nosso Estado já não pode ser o motor da economia através de megaempreitadas. A espinha dorsal do regime (crédito internacional - Estado - construtoras) foi quebrada pela crise financeira. Sem o crédito gerado pela tal ganância de Wall Street, o Estado português já não pode alavancar a economia através do "new deal" que mantém - há décadas - com as construtoras civis. Neste sentido, podemos dizer que o pacote de obras públicas deste Governo é uma ameaça ao contrato entre gerações. Financiar os mastodontes de Mário Lino significa colocar uma corda no pescoço da minha geração, e, se não se importam, a minha geração não merece ser a fiadora do ego do ministro Lino.

Durão Barroso

Sob liderança portuguesa, a Europa assumiu finalmente uma posição de liderança mundial. É com orgulho que vejo um português - Durão Barroso - a servir de farol para o barco americano na questão da reforma da ordem económica internacional (FMI, Banco Mundial, etc.). Estamos a assistir a um processo que vai redesenhar as instituições criadas após a II Guerra Mundial. E convém frisar que um português está na vanguarda deste momento histórico. Eu sei que esta questão não é tão fotogénica como uma montanha de refugiados a passar fome no Chade. Mas, parecendo que não, esta reforma da ordem internacional é a questão central do nosso tempo.

Henrique Raposo