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A Tempo e a Desmodo

Os russos estão a perder o medo (ou a Primavera Eslava)

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Devido à fraca qualidade do autor do costume, a gerência de "A Tempo e a Desmodo" resolveu abrir uma nova secção: "os convidados". A convidada desta semana é Ekaterina Gorbunova, cientista política (ICS-UL), que nos fala aqui da Revolução de Neve, isto é, do despertar político e cívico na Rússia. 

"Os russos estão a perder o medo (ou a Primavera Eslava)", por Ekaterina Gorbunova 

Há cerca de um mês, depois de receber esta proposta para reflectir sobre as aspirações imperialistas da Rússia de hoje, pensei escrever sobre a difícil e autoritária história do país e, em consequência, sobre a capacidade do povo para tolerar as dificuldades até o fim, e a necessidade - por parte da população - de ter um líder poderoso na procura da "ordem" e da "estabilidade". Procurava explicar que este desejo de uma "mão forte" e de um tipo de governação paternalista tem muito que ver com o carácter russo e com a "cultura política planeada". Mas parece ter chegado uma nova geração - mais informada, com melhor estatuto económico - que tem outras prioridades e valores; uma geração mais exigente e mais preparada para defender os seus direitos e liberdades e criar, assim, alguma base para uma política democrática. Nunca pensei que iria ter uma prova tão clara desta última tese em tão pouco tempo.

As eleições para a Duma Estatal (o Parlamento no sistema institucional russo), que ocorreram no dia 4 de Dezembro, mostraram mudanças visíveis nas atitudes políticas dos russos, deram origem à maior contestação social dos últimos vinte anos, e provocaram uma crise política de grande escala na Rússia. A dimensão da fraude, já provada por jornalistas e observadores independentes, foi tão significativa que milhares de cidadãos russos sairam para as ruas em acções de protesto.

O que desencadeou esta mudança foi o facto de uma proporção significativa da população não apoiar ou sequer aprovar uma série de decisões recentemente tomadas pelo governo, nomeadamente o chamado "roque" - o esquema de troca de lugares entre Presidente e Primeiro-Ministro. A popularidade da elite governante tem diminuído significativamente nos últimos meses. Em Novembro, a maioria dos cidadãos consideraram o partido "Rússia Unida" como apenas uma ferramenta nas mãos do seu lider Vladimir Putin e do seu círculo; do mesmo modo, 45% da população não o queria ver como partido do poder. A imagem deste partido, enquanto partido forte, parece ter sido destruída. As pessoas estão verdadeiramente cansadas do partido e dos seus membros. E isto significa o início do fim da legitimidade popular do actual regime e da hegemonia de um único partido. E é sabido que a perda de legitimidade, mais cedo ou mais tarde, conduz inevitavelmente a uma perda de poder.

As numerosas manifestações a favor de eleições livres, que decorreram durante a última semana em várias cidades da Rússia, reuniram não tanto pessoas 'indignadas' e 'ofendidas', das classes sociais mais baixas, mas, pelo contrário, pessoas educadas, bem sucedidas e 'saciadas', que viviam bem mas perceberam que não viviam livremente. São estas pessoas, que incluem muitas figuras públicas, escritores, jornalistas e apresentadores, que se sentiram enganadas pelo processo eleitoral. São pessoas que não se sentem revolucionárias, nem rebeldes, mas cidadãs, e que exigem respeito da parte do governo do seu país.

Mas, agora, a questão crucial será esta: estamos a testemunhar o fim do monopólio do actual 'tandem' do Kremlin e um verdadeiro despertar político e cívico na Rússia, capaz de conduzir a um novo sistema político, mais aberto, mais competitivo e mais democrático, ou estamos apenas perante uma temporária euforia social, estimulada pelas redes sociais?

Sim, ainda é muito cedo para fazermos qualquer tipo de prognóstico. Apesar de terem autorizado os protestos, de terem permitido alguma cobertura televisiva e de terem prometido uma investigação da fraude eleitoral, a par de um aumento da representação dos partidos da oposição em comités da Duma, as declarações de Putin e Medvedev parecem mais um desejo de acalmar a própria oposição do que um real passo para uma liberalização política na Rússia. Seja como for, é claro que o Kremlin tudo fará para manter o poder.

A fraqueza dos partidos de oposição e o facto de os seus líderes pretenderem tirar dividendos políticos da contestação social também pode jogar a favor do poder actual. A Rússia precisa urgentemente de uma consciência política, traduzida em novos partidos políticos, de diferentes orientações, à esquerda e à direita, moderados ou mais radicais. Por outro lado, durante as últimas semanas a sociedade russa sofreu importantes mudanças e, quero acreditar, estas são irreversíveis. Pela primeira vez na história política russa, os protestos em massa foram inspirados e coordenados fora das estruturas políticas tradicionais, com base nas redes sociais, onde as pessoas têm a total liberdade para expressar a sua insatisfação. Esta ideologia do movimento não é tanto um protesto político, mas civil. Estamos a testemunhar o nascimento da sociedade civil na Rússia.

Agora é importante não parar. Diria que este sábado, dia 24 de Dezembro, para o qual está marcada uma nova onda de manifestações por toda a Rússia, e os meses que se seguem até as eleições presidenciais em 4 de Março de 2012 dirão se este é um período crucial de mudança para o futuro do país, ou não. A ver vamos.