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A Tempo e a Desmodo

O retrato-robô de Sócrates

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Nos últimos anos, o país andou embriagado com o otimismo de senhor engenheiro. Durante o socratismo, a política foi substituída pela psicologia barata do "o-importante-é-despertar-a-energia-positiva-que-há-em-nós". Na cabeça de Sócrates e do seu PS, parecia que bastava acreditar; bastava acreditar para a realidade obedecer aos desejos do senhor engenheiro e dos portugueses de boa vontade. Ora, é precisamente este vício do optimismo progressista que está, mais uma vez, debaixo do bisturi de Roger Scruton, um dos monarcas do conservadorismo contemporâneo. O "otimista inescrupuloso" deste As Vantagens do Pessimismo até parece um retrato-robô do nosso querido engenheiro.

Scruton diz-nos que o otimismo pode gerar políticos "inescrupulosos", porque o otimista não considera os efeitos práticos das suas políticas. Pior: nem sequer se preocupa em arranjar as bases materiais para a consumação das suas políticas. A realidade empírica que o rodeia não passa de um figurante. Desta forma, o otimista inescrupuloso - o flagelo da modernidade - dá constantes saltos de fé, porque recusa reconhecer que os factos e a razão não o apoiam. Vive, portanto, na falácia da "melhor das hipóteses", ou seja, acha que a sua acção terá sempre o melhor dos resultados. E - repare-se nesta socratinice típica dos progressistas - o otimista "dedica-se a um resultado, e ou se esquece de fazer as contas ao custo do fracasso ou então - e este é o seu aspecto mais pernicioso - projecta endossá-la a outrem". Como bem se lembram, a culpa nunca era de Sócrates. E, no futuro, o nosso engenheiro dirá sempre "mas, reparem, eu actuei sempre em nome do progresso".

Bom, é esta a "visão inescrupulosa do otimista", marcada por esta "espécie de vício do irrealismo", por esse "desejo de riscar a realidade enquanto premissa donde parte a razão prática". E, atenção, Scruton afirma que a "visão inescrupulosa do otimista" não está relacionada com meros erros de raciocínio. Não estamos no campo da razão, dos argumentos e dos factos. Este otimismo visceral remete para uma pulsão emotiva, para "necessidades emocionais que se defenderão com todas as armas para firmar o conforto das suas ilusões". E, como ficou evidente ao longo do socratismo, estas ilusões estão fora do alcance do debate racional baseado em números, factos e argumentos. No fundo, estamos perante "um molde mental que de algum modo misterioso é indiferente à verdade", um molde utópico marcado pela "necessidade metafísica que leva à aceitação de absurdos não a despeito da sua absurdidade mas por causa dela". Então, este livro é ou não é o retrato-robô de Sócrates?

PS: após a crítica ao otimismo, convém dizer que "o pessimismo sistemático de profetas como Jeremias não é menos repleto de ilusões nem menos destrutivo de razoabilidade do que o optimismo inescrupuloso contra o qual se dirige". Mas este tema - mais do que importante em Portugal, terra de utópicos quinto-imperialistas e de Jeremias apocalípticos - fica para outra altura.