Siga-nos

Perfil

Expresso

A Tempo e a Desmodo

O fim da ilusão

A governação de Sócrates assentou numa premissa: gritar "bota-abaixismo" ou "neoliberalismo" para enxotar a realidade. Ontem, este véu da ilusão foi rasgado. Agora, é repensar, com calma, sem berros, este statu quo.

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

I. Até 29 de Setembro de 2010, a luta girava em torno de uma coisa: forçar Sócrates (e o país) a olhar para a realidade. A luta passava por retirar o PS (e o país) do denial em que se encontrava. O estado de negação acabou ontem. A bolha ideológica e mediática que Sócrates criou à volta do país, impedindo o choque de Portugal com a realidade, rebentou ontem. As medidas apresentadas por Sócrates e Teixeira dos Santos, sobretudo do lado da despesa, poderiam ter sido apresentadas ao longo dos últimos meses. Quando, em Novembro de 2009, a Irlanda cortou 20% na função pública, ficou claro que algo parecido ia acontecer a Portugal. Mas José Sócrates, como sempre, mostrou-se incapaz para sair da sua bolha do power point e das agências de comunicação. Até ontem.

II. Agora, a luta passa a ser esta: temos de repensar este statu quo, que é manifestamente insuportável. Que Estado Social podemos e/ou devemos ter? Não podemos seguir os modelos nórdicos? Como garantir a sustentabilidade do SNS? Não seria mais eficaz e barato ter a ADSE como "seguro de saúde" para todos os cidadãos, e não apenas para os funcionários públicos? Ou seja, a ADSE não devia ser o SNS? Como reformar a economia? Como mudar de paradigma? Nós não podemos continuar neste paradigma cavaquista/socratista de grandes obras e com o Estado a valer 50% do PIB. Nós não convergimos com a Europa há 10 anos. Perdemos uma década, apostando em estradas e "TGVs", e deixando de lado o entulho que emperra tudo (rigidez laboral, lentidão da justiça, incapacidade para beneficiar fiscalmente as empresas que exportam, etc.).

III. Para começo de conversa, convém olhar para as 14 mil instituições que recebem dinheiro do Estado. Eu gostava que alguém colocasse este desafio a todos os partidos: meus caros, nesta constelação de 14 mil bocas, quantas são absolutamente necessárias? Porque uma coisa é certa: se não moralizarmos o Estado, se não colocarmos na ordem os boys que controlam estas 14 mil instituições, daqui a uns anos vamos ter um novo orçamento FMI. O orçamento ontem apresentado é um corte burocrática de emergência. A médio prazo, nós precisamos de repensar politicamente o Estado. Politicamente, e não burocraticamente. E, nesse processo político, os partidos não têm de enfrentar os funcionários públicos, mas sim as suas próprias concelhias e distritais, essas centrais de empregos, tachos e subsídios para as tais 14 mil bocas.

IV. Para outro começo de conversa, convém olhar para este encontro organizado por Nicolau Santos: a reabilitação urbana e o arrendamento são dois caminhos incontornáveis para a mudança de paradigma da nossa economia e das nossas cidades.