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O euro, a UE e o pensamento mágico

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

O pensamento mágico tem muita força em Portugal. Eu era pequenino, mas lembro-me de ouvir os donos do regime a falar do euro como se a moeda única fosse Cristo na terra. Por volta do ano 2000, parecia que o euro ia resolver, por artes mágicas, os nossos problemas económicos. Aliás, o Banco de Portugal de Vítor Constâncio apoiou este tese. Como relembra Nogueira Leite em conversa com Paulo Ferreira (livro ao lado), Vítor Constâncio desvalorizou sempre o problema do défice externo durante o seu mandato no Banco de Portugal (2000-2010). Para Constâncio, os membros da união monetária não tinham de "estar todos em equilíbrio". Ou seja, Constâncio pensava que o equilíbrio da Alemanha compensaria automaticamente o desequilíbrio de Portugal, tal como o desequilíbrio do Mississípi é compensado pelo equilíbrio do Texas ou Califórnia dentro dos EUA. Ora, o erro de Constâncio estava precisamente nesta equivalência entre a Zona Euro (que faz parte de uma confederação de Estados soberanos, a UE) com os EUA (uma federação de estados autónomos mas não soberanos). Nos EUA, só há uma soberania e um tesouro nacional. Na UE, há 27 soberanias e 27 tesouros nacionais. Como salienta Nogueira Leite

"Constâncio dava muito valor à construção teórica do funcionamento das zonas monetárias óptimas. Mas uma coisa são zonas monetárias óptimas que correspondem a (...) um estado federal, como é o caso dos EUA (...) Outra coisa é a Europa, onde há múltiplas nações".

A par disto, convém dizer que - por volta de 2000 - as críticas ou os sinais de cepticismo em relação ao euro eram, de imediato, rotulados de "eurocepticismo" (um pecado menor), "soberanismo" (um pecado maior) e, claro, de "salazarismo" (a forca ou guilhotina). Como se viu, as coisas correram bem.

Agora, passados 10 anos, este pensamento mágico é dirigido para a chamada "união política da UE". O novo Santo Graal já não é o euro, mas a "união política da UE", ou "governação económica da UE". Parece que este upgrade da UE tem o poder para resolver, por artes mágicas, os problemas da economia portuguesa. Lamento interromper a cantoria mágica, mas os nossos problemas continuariam a existir nesse hipotético cenário. Porque os nossos problemas não têm uma resolução burocrática ou meramente financeira. São problemas económicos e institucionais que só se resolvem com trabalho português. Mas, atenção, uma coisa mudaria de certeza no cenário da "união política da UE": os pacotes de austeridade seriam ainda mais brutais, porque um todo-o-poderoso Ministro das Finanças Europeu não teria de passar pelo crivo do nosso parlamento. Portugal deixava de ser membro soberano de uma confederação e passava a ser uma província de uma federação. A terapia de choque seria ainda maior.