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Expresso

A Tempo e a Desmodo

Livros da década (III)

Vida longa para os escritores americanos. Os de Nova York e, sobretudo, os do Rio de Janeiro.

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

10.º: Vasco Pulido Valente, "Glória", Gótica, 2001.

Um fresco notável da segunda metade do nosso século XIX. Através de uma personagem histórica menor (Vieira de Castro), Pulido Valente retrata todos os aspectos da elite oitocentista: o caos circense da Universidade de Coimbra, os bastidores da política da monarquia constitucional, o marialvismo dos jovens e velhos bacharéis de Lisboa. Haverá quem diga que "Glória" não é uma biografia, mas sim um romance. Sobre isso, há que dizer uma coisa: os grandes historiadores são escritores. Um grande livro de História não passa à condição de romance só porque é muito bom. Vasco Pulido Valente é tão escritor como Lobo Antunes ou Saramago. E a biografia não é um género inferior ao romance.

9.º: Sebald, "Austerlitz", Teorema, 2004.

Fala-se muito da busca do grande romance americano, esse livro mítico com a capacidade de resumir o espírito americano. Ora, acho que também podemos falar do grande romance europeu. E nem é preciso iniciar a busca, porque esse romance já existe. Chama-se "Austerlitz". Sebald deixou-nos o livro que resume, na perfeição, o "ar do tempo" europeu. O peculiar estilo labiríntico de Sebald é a forma ideal para abordar esse labirinto que é a memória europeia. A Europa está enleada na sua memória, tal como Austerlitz está enleado na história da sua família.     

8.º: Bryan-Ward Perkins, "A Queda de Roma e o Fim da Civilização", Alêtheia, 2006.

Com o objectivo de anular o confronto entre a Europa latina (Roma) e a Europa germânica (os bárbaros), vários historiadores "europeístas" começaram a projectar um conto de fadas sobre a queda de Roma. Os bárbaros e os romanos, assim reza a tese, sentaram-se à mesa e dialogaram de forma pacífica (parece que já existia a ética do diálogo habermasiano no início da Idade Média). Bryan-Ward Perkins desmonta esta falácia num livro que é um modelo para qualquer ensaísta. Não tenham dúvidas: o fim do império romano foi mesmo o fim da civilização e o início das trevas.

7.º: Marjane Satrapi, "The Complete Persepolis", Pantheon, 2004.

Eis a famosa banda-desenhada autobiográfica da artista iraniana Marjane Satrapi. Enquanto conta - de forma terna - a "estória" da sua família, Satrapi conta-nos - de forma áspera - a História do Irão desde 1979. Eis, portanto, um livro à moda antiga: a "estória" pessoal é o veículo através do qual se conta a "História". Com isto, Satrapi destrói muitas das manias do pós-modernismo ocidental. Os pós-modernos decretaram o fim das grandes narrativas como "pátria" ou "liberdade". Ora, este livro é sobre a pátria e sobre a liberdade. Sente-se um enorme orgulho na narrativa da civilização persa, que foi corrompida pelos Ayatollas. A par disso, este é um livro sobre os iranianos que lutaram contra o Xá e contra Khomeini, em nome da liberdade. E, acima de tudo, este livro não é sobre o umbigo de Satrapi. É sobre aqueles que a rodeiam: a sua família e o seu país. A morte do pós-modernismo veio do Irão.

6.º: Philip Roth, "Conspiração Contra a América", D. Quixote, 2004.

Não tenho paciência para a fase azul-viagra de Roth, mas a verdade é que o homem fez o "grande romance americano" da década. Este romance conta uma história alternativa dos EUA, na qual o anti-semita Lindbergh (o herói aviador) vence Roosevelt nas eleições de 1940. Não vou contar nada do enredo; vou apenas dizer que este é um livro sobre o "patriotismo cívico" dos EUA. O apego à Constituição e à Declaração de Independência é uma "religião civil" para os americanos. No livro, quando a família Roth fica perante a estátua de Lincoln, em Washington, sentimos esse fervor pátrio. Os Roth ajoelham-se perante Lincoln da mesma forma que uma família portuguesa se ajoelha em Fátima: para se protegerem do mal. Lincoln é a América e Deus na mesma pessoa. E Washington D.C. é o Éden americano, que, de vez em quando, é ameaçado por um inquilino indesejado na Casa Branca. 

5.º: Simon Sebag Montefiore, "Estaline", Alêtheia, 2006 [2003].

Esta biografia é longa, por causa dos pormenores que Montefiore conseguiu acumular. Esta biografia é bela, por causa do estilo fabuloso de Montefiore. E esta biografia é devastadora, porque podemos ver aqui como o terror estalinista foi o resultado da utopia comunista. Montefiore mostra que o Gulag não foi obra de um louco que desumanizou a utopia. Pelo contrário: a utopia já era intrinsecamente desumana. Para ser implementado, o comunismo precisava de homens mui virtuosos que encarassem a morte como instrumento político. Estaline foi o rei desses virtuosos.

4.º: Rubem Fonseca, "Ela e Outras Mulheres", Campo das Letras, 2008 [2006].

Para mim, a entrada no universo de Rubem Fonseca foi um dos acontecimentos literários da década. O Prémio Camões de 2003 deixa, de facto, uma marca indelével. Ficamos perante o mal e o medo em estado puro. Até apetece dizer que este livro de contos é o "grande romance brasileiro". Encontramos aqui o lado lunar da urbanidade brasileira. Fonseca descreve a violência, o crime e o sexo de forma quase desumana. Um homem pode ser torturado por dois homens? Sim, é possível. Então, Fonseca descreve este acto (e outros muito piores...) com uma frieza glaciar. É como se Rubem Fonseca fosse um antropólogo alienígena a tirar notas sobre o comportamento dos nativos, os humanos. A escrita deste autor brasileiro é um notável mundo sem adjectivos.

3.º: Ruy Castro, "Rio de Janeiro - Carnaval de Fogo", Asa, 2006 [2003].

Descobrir Ruy Castro foi o outro grande acontecimento da "minha" década literária. As biografias de Ruy Castro (ler, por amor ao altíssimo, a biografia de Nelson Rodrigues, "O Anjo Pornográfico") são obras literárias de primeira grandeza. Não por acaso, este livro é a "biografia" do Rio de Janeiro. Se Rubem Fonseca é o lado lunar do Rio, Ruy Castro é o lado solar da cidade maravilhosa. O amor que Ruy Castro sente pela beleza e vivacidade dos cariocas saltita em todas as sílabas do livro. E o próprio estilo reflecte isso. Se Rubem Fonseca é contido e seco, Castro é explosivo e repleto de imagens e metáforas improváveis a cada linha (a escrita de Fonseca é um soco; a de Castro é uma gargalhada). Ruy Castro é um dos grandes herdeiros de Nelson Rodrigues. Ou seja, lê-lo é um prazer quase carnal.

2.º: George Steiner, "Gramáticas da Criação", Relógio D'Água, 2001.

A par de "No Castelo do Barba Azul", este livro é o grande testamento de George Steiner, provavelmente o maior intelectual vivo. Se "Barba Azul" foi uma revolta clássica contra os pós-modernismos multiculturalistas, "Gramáticas da Criação" é uma revolta ética e artística contra o império da ciência. A lógica da ciência saiu dos laboratórios e invadiu toda a sociedade. Muitos cientistas, aliás, até querem "proibir" as velhas inquietações metafísicas e religiosas do homem. Steiner vem dizer que essas inquietações não podem ser anuladas pela ciência, porque a ciência não chega a todo o lado. Mais: num mundo de ateísmo científico, a arte fica profundamente empobrecida. Em suma, um mundo de ciência, sem um pingo de religião, é um mundo desumano; um mundo científico, sem uma ética transcendente, é um mundo frio, feio e até perigoso. 

1.º: Cormac McCarthy, "A Estrada", Relógio D'Água, 2006.

Já falei do grande romance europeu ("Austerlitz"). Já falei do grande romance americano ("Conspiração Contra a América"). É tempo de falar do grande romance. Ponto. "A Estrada" é mesmo o livro da década. Em "Gramáticas da Criação", Steiner escreveu qualquer coisa como isto: perante a arrogância científica e perante a aridez de "artes" tecnológicas (design), "a exultação e a dor, a angústia e o júbilo, o amor e o ódio continuarão a reclamar uma expressão articulada". Com "A Estrada", McCarthy respondeu a esse apelo de Steiner. Este livro é sobre o amor e sobre a fé. Tendo em conta o cenário apocalíptico, até podemos dizer que "A Estrada" é um novo livro da Bíblia.