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A Tempo e a Desmodo

Há crise, logo, vou roubar gasolina

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Eu sei que é difícil fazer uma peça de telejornal. Eu sei que dá jeito ter uma narrativa-que-explica-tudo para enquadrar 2 minutos de imagens. Eu sei que já jeito ter uma narrativa que, ainda por cima, garante um tom de superioridade moral ao jornalista. Sei isso tudo, mas também sei que as peças dos telejornais estão cada vez mais superficiais, pois estão sempre a fazer beicinho para as narrativas fáceis do BE e da extrema-esquerda. E eu - repito - percebo porquê: a realidade é sempre simples para o BE, há sempre um branco e um preto, um bom e um mau, e isto dá muito jeito a quem tem de "explicar" coisas em 1/2 minutos. Problema? O resultado é péssimo e a realidade aparece com contornos amorais. Ver o mundo pelos olhos do BE começa a ser um pouco indigesto. 

Há dias, uma peça passava a seguinte mensagem mui edificante: há crise, logo, as pessoas metem gasolina e fogem sem pagar. Durante dois ou três minutos, um telejornal andou a marinar nesta patranha de extrema-esquerda que explica tudo através da crise. Não, não é a falta de vergonha que leva uma pessoa a roubar gasolina. Não. É a crise. Não, não é falta de carácter que leva um indivíduo a fugir sem pagar. Não. É a crise. Aliás, as pessoas que deixam o carro em casa não são cidadãos com vergonha na cara. Nada disso. São idiotas que não percebem uma coisa: a crise é um álibi sociológico que desculpabiliza qualquer ato de um indivíduo. Aliás, com a crise, já não há indivíduos conscientes que fazem escolhas morais. Nada disso. Com a crise, os "pobres" são meras folhas inertes ao sabor dos ventos estruturais. O "pobre" não faz escolhas morais, pá. Isso é um luxo dos "ricos", outro belo conceito, muito sério e analítico.