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FMI, o amigo da geração lixada

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

Há coisas que não se entendem no debate público português. Há mês e meio, só se falava da geração lixada, da geração sem direito a segurança social apesar de descontar (falsos recibos verdes). Era o tema. Era o princípio e o fim da nação. Ora, o FMI resolveu ajudar esta geração lixada pelos direitos adquiridos. No documento da troika podemos ler que um falso recibo verde pode receber subsídio de desemprego (ponto 4.1 iv, página 20). Mas, por artes mágicas, este facto revolucionário não tem sido comentado, não tem aparecido. De repente, a geração lixada deixou de interessar. Mas a verdade é que o tal FMI, contrariando a narrativa vigente, ajudou a geração lixada.

E, atenção, a concessão de subsídio de desemprego é só uma das ajudas do FMI aos mais jovens. A reforma no mercado de habitação é outro exemplo desta aliança FMI/jovens. Ao impor um mercado de arrendamento mais competitivo, o memorando procura baixar as rendas e, acima de tudo, visa colocar mais casas no mercado de arrendamento. Depois, o memorando FMI/UE acaba com o "respeitinho pelos mais velhos" que estava explícito no código de trabalho. Até hoje, uma empresa em reestruturação estava obrigada a despedir o empregado mais novo, porque o mais velho tinha prioridade. Porquê? Porque era a antiguidade e não a competência que mandava no statu quo laboral. Agora, é a competência e não o respeitinho que vai determinar quem sai e quem fica. Além disso, a troika reduz a altíssima protecção de quem tem contrato permanente. As razões do despedimento vão ser flexibilizadas e as indemnizações reduzidas. O objectivo é diminuir o receio de contratar sem termo (o maior medo das nossas empresas). O objectivo é, portanto, diminuir o fosso entre os falsos recibos verdes e a malta mais velha do quadro.

É patético: as medidas que equilibram o jogo entre velhos e novos só entraram em Portugal a partir do exterior. Ao longo de décadas, a nossa classe política (e jornalística) foi incapaz de discutir a sério estas medidas. Como diz Bruno Faria Lopes, o documento da troika "fez mais pelos jovens do que qualquer governo dos últimos 15 anos".