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A Tempo e a Desmodo

Fetiche europeu: ai, que não há esperança

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

O pessimismo domina o ar do tempo aqui na Europa. Todos os dias de manhã alguém aparece a prometer um Apocalipse para as três da tarde. A situação está má, sim senhora, mas ainda não vi nem um dos quatro cavaleiros do Apocalipse. Portanto, vou permanecer na minha: se calhar, a Europa não acaba hoje às três da tarde. Mas sabem o que é ainda pior? É que esta moda apocalíptica não é de agora. Sim, claro, a crise potenciou o discurso negro, mas a atitude "ai, que não há esperança para a Europa e, logo, para a Humanidade" já cá está há muito. 

Repare-se, por exemplo, em Humanidade Perdida (ASA), um livro de Alain Finkielkraut (tem nome de salsicha alemã, mas o homem é francês). O livro é de 1996. Ora, em 1996, a Europa não estava em crise. Aliás, vivíamos a época mais pacífica e próspera de que há memória. Ao pé dos problemas de 2011, os problemas de 1996 só podiam ser brincadeirinha. Porém, o livro está assente num pessimismo terminal e pegajoso. Em 1996, Finkielkraut ainda reflectia sobre Auschwitz, ainda reflectia sobre a transformação do humano no não-humano (Primo Levi), ainda reflectia sobre o cão de Levinas. Portanto, em 1996, a identidade europeia ainda precisava de recuar até 1945. Exagero? Não sei, talvez. Mas, de facto, os europeus não deram a devida importância à paz e prosperidade de que usufruíram na pausa histórica (1989-2008). Como dizia o meu avô num português perfeito, we never had it so good.

Mas a problema principal do livro nem sequer é este pessimismo deslocado no tempo. O problema central está no facto de Finkielkraut assumir que Auschwitz é uma questão da Humanidade inteira. Lamento, mas não é. Auschwitz é uma questão da história europeia, e não mundial. Se a narrativa europeia pós-45 parte do pessimismo de Auschwitz, a narrativa da Índia pós-47, por exemplo, é optimista. Enquanto Finkielkraut, dando largas ao seu eurocentrismo, colocava o Holocausto a encobrir o século XX inteiro da Humanidade inteira, intelectuais indianos como Ramachandra Guha falavam com um enorme optimismo em relação ao século XX, o século da independência e da formação da maior democracia do mundo. Enquanto Finkielkraut projectava um século XXI de pessimismo para toda a Humanidade, os indianos - com muita ou pouca humildade - projectavam e projectam um século XXI de optimismo e de liderança indiana (às custas da liderança europeia).

Moral da história? Antes de ter uma substância real (pós-2008), o pessimismo europeu era uma pose. E, agora, mesmo quando já têm razões substantivas para estarem pessimistas, os europeus não podem assumir que o pessimismo europeu é sinónimo de pessimismo da Humanidade