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Coligação PS/BE (ou outra coisa nova)

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

No editorial de ontem do i, Ana Sá Lopes dizia que o BE perdeu metade da bancada parlamentar, porque não respeitou o pragmatismo tão do agrado dos portugueses. Ora, neste ponto, não me parece que Ana Sá Lopes tenha razão. Esta não é uma questão portuguesa. O que está aqui em causa não é uma especificidade dos portugueses, mas sim uma especificidade das democracias consolidadas: os eleitorados maduros querem soluções de governo, e não revolucionarismo de spa. É assim em Portugal, é assim na França, Reino Unido, Alemanha, etc. Se apresentassem as posições lunáticas do BE de Louçã, Os Verdes alemães não seriam uma força poderosa e um parceiro de coligação do SPD.

E, já que estamos a falar de especificidades portuguesas, convém adiantar o seguinte: o que aconteceu no domingo foi - precisamente - a ruptura com uma especificidade portuguesa. No dia 5 de Junho, os eleitores portugueses puniram a esquerda, porque os partidos de esquerda são incapazes de apresentar soluções de governo. É assim desde 1976. Repare-se: a esquerda tinha uma maioria parlamentar, mas foi incapaz de formar uma maioria de governo. Por outras palavras, os eleitores portugueses puniram a especificidade da esquerda portuguesa, e abriram a porta a uma de duas coisas: ou o BE muda de natureza, ou aparece um partido novo à esquerda com a capacidade para captar o eleitorado libertário que fez a força do BE, e com a humildade para formar uma coligação de esquerda estável com o PS. Quando isso acontecer, confesso que irei comemorar essa coligação, porque a dita representará a normalização e a europeização definitiva da nossa democracia.