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A solução da esquerda: odiar Merkel e a Alemanha

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

A esquerda portuguesa tem uma solução para a crise que criou aqui em Portugal, a saber: culpar a UE e a Alemanha por todos os males do país, da Europa e quiçá do Mundo. A extrema-esquerda ataca directamente a UE, questionando a utilidade desta relíquia do século passado. Como não tem uma narrativa anti-UE, o PS refugia-se num ódio fácil contra a Alemanha e contra Merkel. Nos anos 80, os socialistas adoravam odiar Thatcher. Aliás, pensavam que ter um pensamento sobre a UE era o mesmo que xingar Thatcher. Hoje passa-se uma coisa parecida com Merkel. A loquaz Ana Gomes dá o mote: "não nos devemos submeter ao diktat da Alemanha". O dr. Mário Soares dá a estocada final: "Pensará a Alemanha que é dona e manda unilateralmente na UE? Foi essa arrogância que nos levou a duas guerras mundiais". Como se vê, o nível da argumentação é rasteiro. Comparar as Grandes Guerras com o cenário actual não é apenas historicamente risível. Também revela desonestidade intelectual. Nos debates internos, os socialistas não demoram muito a invocar Salazar para - obviamente - rotular os seus adversários de "salazaristas". Soares, Alegre e Arnaut são especialistas nesse truque. E, agora, parece que não conseguem entrar nos debates externos sem invocar o fantasma de Hitler. Começo a desconfiar que a nossa esquerda não consegue pensar sem estas duas bengalas, Salazar e Hitler. 

No meio disto, não se percebe o pensamento socialista sobre a UE. Queriam o quê? Que a Alemanha pagasse as nossas contas sem dizer ai nem ui? É isso a tal "solidariedade europeia"? Os alemães deviam pagar as contas e as dívidas e os disparates de portugueses e gregos sem pedir uma responsabilização? Ou seja, a "solidariedade europeia" deve ser feita contra as expectativas legítimas do eleitorado alemão, e holandês, e finlandês? É isso? Portanto, devemos construir uma "solidariedade europeia" sem o mínimo respeito pelos povos europeus em concreto? É isso? Depois, parece que os socialistas defendem a criação de "eurobonds". Parece que é a nova solução mágica para a UE. Mas esta doce gente tem noção do que está a pedir? Uma Europa com "eurobonds" seria uma Europa com um super-ministro das finanças, que controlaria directamente o Tesouro de todos os países da União. Ora, neste cenário, as crises dos países mais frágeis não desapareceriam por artes mágicas, logo, os pacotes de austeridade seriam idênticos, mas seriam impostos por um todo-poderoso ministro das finanças sentado em Bruxelas. E isto criaria uma tensão política insuportável. Se neste momento o ódio à UE e Alemanha está alto, num cenário de "eurobonds" e união fiscal esse ódio seria ainda maior. É preciso ter muito cuidado com o mito da "governação económica" da UE.