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A pergunta proibida: a Europa tem futuro?

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

A pergunta meio apocalíptica já não é mania de pessimista. Tendo em conta o que está em cima da mesa e, sobretudo, tendo em conta aquilo que aí vem, a pergunta proibida faz sentido: a Europa tem futuro? Esperemos que sim, mas, por enquanto, três fantasmas ensombram a confederação europeia. 

I. Como é possível existir uma união quando a social-democracia nórdica é percepcionada pelo sul da Europa como "neoliberalismo" (i.e., fascismo-que-veste-Armani)? Ao nível da ética de trabalho e das leis laborais, um social-democrata holandês ou dinamarquês diz coisas que nem o CDS tem coragem para dizer. O problema não é a inexistência de um demos europeu. O problema começa muito antes. Começa na ausência de um debate europeu. Por outras palavras, não existe uma cultura política europeia. E, sem uma cultura política a montante, não pode existir uma união monetária e institucional a jusante. Ou pode?

II. Como é possível concebermos as eurobonds quando - a montante - ainda é dificílimo fazer uma harmonização de políticas? Veja-se, por exemplo, a polémica em redor do teto constitucional sobre a dívida soberana. A nossa esquerda não aceita essa medida. Problema ainda maior? O PS, grande defensor das eurobonds, não percebe que o teto constitucional é uma das antecâmaras da institucionalização das eurobonds. Projectar eurobonds sem uma harmonização das políticas é como começar uma casa pelo telhado.

III. No debate em curso, os média e responsáveis políticos falam das eurobonds como se isso não implicasse uma viragem para o federalismo. Não tenho qualquer problema teórico com o federalismo. Aliás, como tem defendido Paulo Rangel, um país como Portugal teria mais protecção e peso numa Europa federal a sério. Ou seja, nos hipotéticos Estados Unidos da Europa, Portugal estaria melhor do que está nesta confederada União Europeia. Para começo de conversa, num senado europeu, Portugal teria tantos senadores como a Alemanha. Portugal não seria anulado como entidade autónoma e historicamente distinta dos restantes estados europeus. Bom, mas isso já é outra conversa. Neste momento, queria apenas colocar uma dúvida história sobre a mesa: os eleitorados europeus estão preparados para essa integração política? Todos os sinais indicam que não.

O que poderá transformar este rotundo não num sim redentor? A noção de que apenas uma federação europeia pode defender os valores e interesses europeus num mundo marcado pelo poder dos gigantes asiáticos? O medo da URSS iniciou a integração europeia. O medo da China e das implicações de um mundo pós-europeu completará esse ciclo de integração? Talvez. Sozinhas, sem uma unidade federal, as nações europeias não passam de pigmeus num mundo com a China, a Índia, a Indonésia, o Brasil, etc. Até a Alemanha é pequena neste novo mundo. O medo de cair nesta irrelevância pode ser a chave do federalismo.