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Expresso

A Tempo e a Desmodo

A má-fé de Sócrates e a meninice de Passos

Este PS tem a má-fé dos condenados. Este PSD tem aquela bravura meio tonta da juventude. O PS nunca quis um acordo. Nunca. E Passos aprendeu, pelo caminho mais complicado, uma coisa óbvia: não se pode dialogar com José Sócrates.

Henrique Raposo (www.expresso.pt)

I. Tendo em conta o passado recente, eu não acredito em Teixeira dos Santos. Ponto. Teixeira dos Santos já perdeu, há muito, a sua famosa credibilidade. Sim, sim e sim: era possível cortar mais na despesa. Não, não e não: ao contrário do que dá a entender o ministro, este corte podia ser feito na parte inútil do Estado, e não nas partes essenciais (hospitais, prisões, etc.). Depois, deixar Catroga à seca durante quatro horas não é só só má educação. É politiquice barata e socrática num momento dramático para o país. Teixeira dos Santos pode fazer as contas que quiser, mas uma coisa ficará sempre no ar: o acordo foi quebrado por acção de José Sócrates.

II. Na substância, Passos e o PSD têm razão. O PS não quer tocar na gordura do Estado, etc. Mas, caramba, foi preciso isto tudo para Passos perceber que não se pode confiar e dialogar com este PS? Há uma - inesperada - mistura de inexperiência e ingenuidade em Passos. Continuo sem perceber por que razão Passos não manteve uma distância higiénica em relação a Sócrates. Porquê? Se já percebeu que não se pode confiar nesta gente, por que razão continua a bater com a cabeça na parede?

III. Espero que, desta vez, Passos dê ouvidos a Nogueira Leite. José Sócrates não pode ter a desculpa para fazer aquilo que tanto deseja: fugir.

IV. Dr. Passos, as contas não são complicadas: se o PSD abrir o caminho da abstenção, isso será mauzinho para o PSD (ok, tem de aceitar um orçamento sacana para as pessoas - mas também não é difícil explicar às pessoas que o PSD tentou o possível e o impossível para melhorar um orçamento que seria sempre mau), mas é mesmo mau para o PS (Sócrates fica preso à governação e tem de beber o veneno até ao fim). E o mais importante: este caminho é o menos mau para o país (os juros não disparam; não há FMI, etc.). Se o PSD chumbar o orçamento, bom, isso será mesmo mau para o PSD (fica com as culpas), é bom para o PS (Sócrates veste a capa de vítima) e, acima de tudo, será mau para o país (crise política, juros sobem, FMI, etc.). E, meu caro Pedro, isto não é difícil de explicar ao eleitorado. As pessoas não são burras. 

 

PS: este texto será desenvolvido ao longo da tarde.