Yegor Timurovich Gaidar, que morreu na madrugada do passado dia 16 de uma embolia cerebral na sua casa de campo de Odintsovo, nos arredores de Moscovo, e nunca se recompusera inteiramente de misterioso envenenamento ao pequeno-almoço de que fora vítima há três anos quando em visita a Dublin, ocorrido logo a seguir ao assassínio em Londres de um ex-agente dos serviços secretos russos que virara a casaca, por ingestão de polónio radioactivo misturado à socapa numa xícara de chá, assassínio de que a polícia londrina acusara um membro desses mesmos serviços (levando a incidente diplomático quando a Rússia se recusou a extraditá-lo) mas que Gaidar atribuía a inimigos do governo russo apostados em complicar mais as relações de Moscovo com o Ocidente, vinha de família com credenciais comunistas e patrióticas exemplares - o avô paterno, herói da guerra civil, fora almirante das forças armadas vermelhas que se batiam contra as forças dos russos brancos logo a seguir à revolução bolchevique, e tornara-se mais tarde autor de livros para crianças de grande sucesso, que inculcavam amor da Rússia e virtudes cívicas; seu pai fora correspondente militar do "Pravda" e amigo pessoal de Fidel Castro -, pertencia às prateleiras mais altas da estratificação social soviética, estudara nas melhores escolas de Moscovo, formara-se com distinção em economia, fora editor económico do "Pravda", e dirigira depois a principal revista ideológica do partido, já no tempo de Gorbatchov, usando-a para divulgar o seu credo económico e ideológico, subversivo na altura.
Desde muito novo o seu brilho intelectual, a sua honestidade despretensiosa e a sua coragem haviam-no tornado o chefe natural de um grupo de economistas jovens que desprezavam as tentativas de recuperação tentadas pelo Kremlin - a miragem gorbatchoviana de reformar o comunismo sem o destruir - e, um pouco como os economistas chilenos trabalhando sob Pinochet, foram influenciados por Frederik von Hayek, Milton Friedman e outros da escola de Chicago e imaginaram remédio a aplicar abruptamente que substituísse o modelo económico soviético por uma economia liberal. O momento chegou em 1991, quando Yeltsin tomou o poder, deu de cima para baixo e sem sangue o golpe de misericórdia na União Soviética e se tornou presidente da Federação Russa. Graças à determinação de Gaidar que, nomeado ministro da economia, aplicou imediatamente medidas que iriam liquidar para sempre a economia estatizada, embora soubesse que tal traria consequências sociais cruéis imediatas que fariam o povo russo detestá-lo. Em 1992, Yeltsin nomeou-o primeiro-ministro interinamente, esperando aprovação da Duma que nunca veio e ao fim de seis meses substitui-o por Tchernomirdin que o parlamento aprovou logo. Gaidar aceitou ser vice-primeiro-ministro e ministro da economia mas demitiu-se em 1993 porque muita gente na administração, assustada pelo descontentamento popular, lhe cortava as voltas. Nunca mais voltou ao governo mas aconselhou algumas vezes Putin - que considerava adversário político mas em quem respeitava o patriotismo - a pedido deste. No centro de estudos que criou em Moscovo, em livros, artigos, intervenções em seminários na Rússia e no estrangeiro, continuou a defender as medidas que tomara e haviam destruído os princípios esterilizantes da economia soviética. Ao libertar os preços, acabar com os subsídios, privatizar as empresas e tornar o rublo moeda convertível, lançara os alicerces de uma economia capitalista que viera para ficar e já resistira à crise financeira de 2008. Gaidar esteve em governos pouco mais de um ano mas transformou radicalmente a vida material da Rússia. A vida moral leva mais tempo a mudar.
Condenara a invasão da Geórgia. Compreendia as razões de checos, húngaros e polacos mas várias vezes o ouvi tentar convencer estadistas ocidentais a não expandirem a NATO, papão herdado da Guerra Fria, porque tal iria soltar os demónios xenófobos da Rússia profunda.
Texto publicado na edição do Expresso de 24 de Dezembro de 2009