E se eles fossem? As mulheres afegãs que protestaram contra a construção de um poço por militares da NATO, porque na sua aldeia tradicional irem todas as manhãs buscar água ao rio é a única oportunidade de falarem à vontade umas com as outras, ficariam contentes. Mas a seguir os talibãs fariam o que têm feito no vizinho Paquistão, onde não há tropas ocidentais: destruir escolas femininas à bomba - três em Novembro passado, nos arredores de Peshawar, cidade fronteiriça. Os talibãs querem as mulheres em casa e analfabetas, como impuseram quando eram governo em Cabul, tendo também dinamitado os monumentais Budas de Bamian e hospedado Bin Laden e o seu estado-maior quando estes preparavam os massacres de 11 de Setembro de 2001. A sua ambição quer controlar o passado, o presente e o futuro e é fanática: o suicida que há dias matou seis agentes da CIA numa base militar americana no leste do Afeganistão era um agente duplo, leal à Al-Qaeda. O queniano que no dia de Natal ia deitando abaixo um avião de passageiros sobre o Atlântico, o somali que tentou matar à machadada o caricaturista dinamarquês de Maomé, também emanavam da Al-Qaeda. A luta deles continua.
Não é por isso boa altura para pararmos a nossa. Amigo querido e fino como um coral disse-me há dias que quando ouvia generais americanos falarem do Afeganistão achava duas coisas: que eles não percebiam o que lá se passava e que a América queria mandar no mundo. Concordei com a primeira e discordo da segunda. Um relatório sobre o caso dos agentes da CIA (publicado na terça-feira à revelia do Pentágono) diz que o pessoal americano encarregado de recolher informação não entende as comunidades locais, a sua economia, a sua distribuição de poder, os seus valores, os seus costumes, e que a ignorância aumenta à medida que se sobe na hierarquia militar. Por seu lado, o caso do candidato a terrorista queniano revelou falhas estruturais e negligência na análise de informação nas grandes agências de segurança americanas. Tudo isto é muito preocupante mas é preciso corrigir e não desistir, tentando aprender onde se saiba (por exemplo, a organização dos serviços de segurança franceses; peritos americanos como o general Michael Flynn, autor do relatório citado).
Os americanos não querem mandar no mundo mas, felizmente para eles e para nós, procuram defender os seus interesses e impedir que o mundo se volte contra eles. Quem se ressinta do poder que os Estados Unidos ainda têm tente imaginar onde estaríamos agora se a Guerra Fria tivesse sido ganha pela União Soviética. Ou onde estaremos daqui a vinte anos se a China do partido único mandar no mundo a seu bel-prazer.
À medida que o efeito Obama se vai desvanecendo reaparece na Europa um antiamericanismo perigoso. O oásis de saúde, prosperidade e decência cívica que hoje se chama União Europeia só pôde construir-se e alargar-se graças à solidez da aliança transatlântica. Se esta deixar de meter respeito, adeus ó vindima.
Texto publicado na edição do Expresso de 9 de Janeiro de 2010