Meu caro dr. Pinto Monteiro, venho por este meio informá-lo do seguinte: eu vou entrar na vida do crime. Eu vou bater à porta daquele crime de grã-fino engomadinho que frequenta os bordéis partidários. E digo-lhe mais, meu caro: eu vou contar aqui o meu maléfico plano, tintim por tintim. Mas não pense que isso o ajudará a travar a minha marcha de gangster politiqueiro. Mesmo conhecendo o meu plano, V. Exa. nunca conseguirá agarrar-me. V. Exa. nunca conseguirá reunir provas contra mim. Nunca. Eu vou traficar perante a sua mui distinta cara, mas V. Exa. nunca conseguirá agarrar-me. Eu serei um wise guy tuga, mas a minha imagem pública será tão asseada como o hábito de uma freira. Eu serei um bandido siciliano, mas o meu cadastro será tão recto como um monge budista. Eu serei intocável. Eu estarei acima dos seus poderes, meu caro.
O plano começa assim: amanhã, vou inscrever-me numa juventude partidária. Nessa excelsa organização juvenil, irei aprender a dobrar todas as regras. Caro dr. Pinto Monteiro, se não sabe, fique já a saber: a juventude partidária é a incubadora da amoralidade política reinante. A juventude partidária é uma espécie de recruta para os comportamentos amorais dos futuros governantes. E, meu caro, atente bem no termo 'amoral'. Porque, ali, na juventude partidária, irei aprender a fazer coisas imorais sem sentir culpa ou remorso. Ou seja, irei aprender a ser amoral. Mais tarde, esta ferramenta mental ser-me-á preciosa quando for preciso mentir com ar de anjinho no Parlamento ou na televisão.
Depois desta recruta, passarei a fazer as campanhas dos meus generais (nesta fase, deixarei de ser um menino e passarei a ser um boy). Durante essas sinistras batalhas eleitorais, ganharei a confiança do marechal. Uma vez no poder, esse marechal colocar-me-á numa daquelas empresas que ficam naquele beco obscuro onde podemos ver a prostituição da política e dos negócios. Qual empresa? Olhe, não sei. Não sou esquisito, nem careço de golden share. Contento-me com uma empresa municipal. Nesse barraco do poder local, poderei assumir, finalmente, a pele de traficante de influências. Com essas traficâncias, ganharei imenso dinheiro e os meus chefes receberão benesses sem fim.
É nesta parte que V. Exa. deveria aparecer para travar o meu plano. Porém, como já lhe disse, V. Exa. nunca poderá deter-me. Porquê? Ora, V. Exa. é tão ingénuo. Então V. Exa. não sabe que, em Portugal, o 'tráfico de influências' está protegido pelo "direito à privacidade"? Na nossa 'Lesboa', o 'tráfico de influências' é uma mera "conversa privada". Portanto, quando a polícia judiciária capturar as minhas traficâncias telefónicas, eu irei alegar que estava apenas a falar com "amigos" e que, por isso, as autoridades não tinham o direito de escutar e divulgar a minha privacidade. Sim, as conversas revelarão o meu uso indevido de dinheiros públicos, mas, que raio, as conversas serão feitas em privado, logo, as escutas serão ilegítimas. Em consequência, o caso será arquivado, eu processarei jornalistas por difamação e, depois, continuarei as minhas traficâncias. Anos mais tarde, quando receber o bastão de marechal, escreverei um livro com o seguinte título: "Num país civilizado, o tráfico de influências só pode ser criminalizado se for feito... em público". V. Exa. terá de reconhecer que este é um plano genial.
Henrique Raposo
Texto publicado na edição do Expresso de 27 de Fevereiro de 2010