Muitos euroentusiastas continuam de monco caído e coração dilacerado por os 27 chefes políticos da União Europeia terem escolhido Herman Van Rompuy para presidente do Conselho Europeu. Homens e mulheres dedicados à construção europeia tinham tentado promover federalistas visionários como o luxemburguês Junker ou uma celebridade como Tony Blair "que parasse o trânsito em Pequim"; alguns, além de intransigência sem mácula nos valores europeus e ecológicos do candidato exigiam carisma (nostalgia de dois males: a pureza revolucionária e a ambição bonapartista). Toda esta gente acha que a Europa foi traída.
Tanta cegueira alarma. Quem queira salvar a integração europeia - que é o trunfo estratégico mais importante de que os europeus dispõem para conseguirem passar do poleiro a que se guindaram nos últimos 500 anos para um poleiro mais abaixo mas ainda confortável sem se irem estatelar no pátio das traseiras do mundo globalizado - terá de perceber que a União Europeia, ao contrário do que muitos dizem, não é a larva de um insecto perfeito futuro chamado Estado Federal Europeu; pátria nova a crescer enquanto 27 pátrias velhas definham. É um arranjo político sui generis com uma característica óbvia mas que muitas vezes escapa a quem a observe: "What you see is what you get".
E o que se vê hoje são interesses nacionais a regatearem compromissos. Onde esses interesses são bem defendidos em comum - no comércio externo, na concorrência, a pouco e pouco no ambiente (na moeda) - o método comunitário predomina, a Comissão Europeia (e o Banco Central) tomam precedência sobre os governos nacionais e a União é um dos patrões do mundo. Em defesa e segurança onde as nações europeias se têm dado bem na NATO e a lidarem bilateralmente com Washington, o método dito intergovernamental predomina. A União conta pouco embora os seus membros possam contar muito. (A meio caminho ficam questões de energia e de justiça).
A melhor maneira de lutar pela Europa não é pregar as suas virtudes ao resto do mundo mas reforçar-lhe o poder. A tarefa prioritária do presidente do Conselho Europeu será estimular o entendimento entre os 27, entrosando neste fios da malha comunitária. A União não precisa à sua frente de um "relações públicas" ou de um missionário. Precisa de uma cerzideira que não deixe o tecido da construção europeia ser rompido. O poder da União, muito maior do que a soma dos 27 poderes nacionais, é económico e assenta na força do mercado interno. Defender este dos instintos proteccionistas dos governos nacionais tem sido e continuará a ser a principal tarefa do presidente da Comissão Europeia que deverá contar a partir de agora com a ajuda do presidente do Conselho Europeu.
Não vai ser fácil. O mundo globalizado é duro para os europeus porque mandam muito menos nele do que mandavam no mundo que havia antes. Se a malha comunitária começar a abrir buracos - ou se a NATO levar um rombo - menos mandarão ainda.
José Cutileiro
Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009