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Votos sem dono

Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
8:00 Segunda feira, 19 de outubro de 2009

As autárquicas têm uma natureza diferente das outras eleições, diz-se sempre. Depois chegam os resultados, todos se esquecem da regra e começam a fazer contas ao deve e haver de cada partido. Interessa-me cada caso. Escolho quatro: Braga, Sines, Oeiras e Lisboa.

Há anos que um pequeno déspota local é dono e senhor de Braga. A sua corte de interesses domina os negócios da terra. Mesquita Machado é um autarca modelo. Modelo do pior da nossa democracia local. Contra si concorreu Ricardo Rio, do PSD. Não venceu mas aproximou-se do dinossauro. Como? Foi buscar votos 'úteis' a comunistas e bloquistas. No poder local, muitas vezes as cores partidárias contam pouco. Ali, a luta pela democracia faz-se contra o PS.

Um autarca defende a sua terra. O presidente da Câmara de Sines defendeu a sua. Defendeu investimentos que o poder central ali foi fazendo. O PCP não gostou e aplicou a sua tese: que os mandatos não pertencem aos eleitos mas ao partido. Como fez a outros, tentou mandar borda fora Manuel Coelho. Só que os eleitores de Sines não querem saber das opiniões da Soeiro Pereira Gomes. Voltaram a eleger Coelho, agora numa lista independente. O PCP, antes com 55%, ficou-se pelos 15%. O mandato afinal era mesmo do presidente.

A máxima "roubo mas faço" continua a ter muita força. Mesmo na Europa. Mesmo em 2009. Mesmo no concelho com mais licenciados do país. Três conclusões a tirar da vitória de Isaltino em Oeiras: licenciaturas não fazem cidadãos, quem acha que são todos iguais não distingue o ladrão do honesto e o pragmatismo dos eleitores não está apenas acima dos partidos. Está, por vezes, acima dos princípios.

O Bloco de Esquerda julgava que bastava concorrer contra o PS em Lisboa para que o voto lhe caísse de novo no colo. Julgava que não precisava de explicar aos seus eleitores porque não estava disponível para entendimentos ou para aceitar pelouros e responsabilidades. Voltou aos resultados que tinha em 2001, dois anos depois de nascer, e perdeu quase tudo o que acumulara nos últimos oito anos na capital. Uma boa lição. Porque as derrotas, como os votos, podem ser muito úteis.

Pragmatismo a mais é falta de princípios, pragmatismo a menos é falta de bom senso. Os eleitores não têm sempre razão. Mas uma coisa é certa: nenhuma direcção partidária é dona dos votos. Daqueles que em Braga, sendo de esquerda, votaram no PSD, que em Sines se estiveram nas tintas para as confianças políticas do PCP, que em Oeiras passaram ao lado da ética pública e que em Lisboa explicaram ao Bloco que não gostaram da sua falta de flexibilidade política. Ao contrário do que muitos pensam, Portugal já não é uma partidocracia. Para o mal e para o bem, é mesmo uma democracia.

Países inseguros

Um país que fala dos brasileiros com recurso a todos os clichés que se conhecem ficou indignado com umas piadolas, velhas de dois anos, de uma actriz de novelas. Choveram artigos de opinião e petições. Mal está a auto-estima de um povo que se deixa abalar por uma tonta. Nas caixas de comentários dos sites, brasileiros e portugueses trocaram piropos: a mulher portuguesa tem bigode, a brasileira trabalha na noite, em Portugal são burros, no Brasil são miseráveis. A falta de respeito que brasileiros e portugueses mostram uns pelos outros é um bom retrato da falta de confiança que têm em si próprios.

Daniel Oliveira

Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Outubro de 2009

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Votos sem dono
Toni 2 (seguir utilizador), 2 pontos , 12:24 | Segunda feira, 19 de outubro de 2009
Tudo isto se resume mais ou menos, que o povo já não sendo analfabeto na sua totalidade, começa a caminhar para o patamar de culto. A maior parte dos politicos ainda não entenderam isto, ou seja a evolução operada, apesar de não ser a desejavel, algo se tem feito. É natural com tanto dinossauro e mumias na politica, ficaram no tempo a marcar passo pensando que ainda somos um País rural e analfabeto, como a muitos convinha. Não deram conta que as aldeias estão a desaparecer e muitos que aí tinham uma grande base de apoio como o PSD a levar o mesmo caminho, caminhando para o abismo alegremente. Isto da politica e do partido, começa e ainda bem a não ser como no futebol para toda a vida e cada um a pensar pela sua cabeça, não seguindo cegamente a militância do progenitor.
 
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    Re: Votos sem dono    Ver comentário
pp70 (seguir utilizador), 1 ponto , 11:52 | Terça feira, 20 de outubro de 2009
    Re: Votos sem dono    Ver comentário
sacristão (seguir utilizador), 1 ponto , 15:15 | Quinta feira, 22 de outubro de 2009
Coisas de traidores dizem escrevem eles
Limes (seguir utilizador), 1 ponto , 23:13 | Segunda feira, 19 de outubro de 2009
Em Portugal quantos foram, são, e?

http://blog.wieczorek.com... ore=1&c=1&tb=1&pb=1

Mesmo que a sua maneira...Eles leram a historia.
 
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Os votos sem dono ...
CãodaRosa (seguir utilizador), 1 ponto , 10:19 | Quinta feira, 22 de outubro de 2009
Os votos sem dono, não são de nenhuma direcção partidária, pertencem àqueles que tem a coragem de não ir atrás da cenoura ou do fardo de palha. Todavia, como o articulista refere, há donos de votos, caciques locais, em certos casos, eleitos com maioria absoluta, indivíduos promovidos pelos partidos, que se servem da democracia para benefício pessoal. Os votos sem dono, tornam-se votos de todos nós, da democracia que somos, mas enquanto continuarem a existir eleitos como o de Braga, Oeiras, Gondomar, não deixamos de lhe dar umas caneladas.
 
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