As autárquicas têm uma natureza diferente das outras eleições, diz-se sempre. Depois chegam os resultados, todos se esquecem da regra e começam a fazer contas ao deve e haver de cada partido. Interessa-me cada caso. Escolho quatro: Braga, Sines, Oeiras e Lisboa.
Há anos que um pequeno déspota local é dono e senhor de Braga. A sua corte de interesses domina os negócios da terra. Mesquita Machado é um autarca modelo. Modelo do pior da nossa democracia local. Contra si concorreu Ricardo Rio, do PSD. Não venceu mas aproximou-se do dinossauro. Como? Foi buscar votos 'úteis' a comunistas e bloquistas. No poder local, muitas vezes as cores partidárias contam pouco. Ali, a luta pela democracia faz-se contra o PS.
Um autarca defende a sua terra. O presidente da Câmara de Sines defendeu a sua. Defendeu investimentos que o poder central ali foi fazendo. O PCP não gostou e aplicou a sua tese: que os mandatos não pertencem aos eleitos mas ao partido. Como fez a outros, tentou mandar borda fora Manuel Coelho. Só que os eleitores de Sines não querem saber das opiniões da Soeiro Pereira Gomes. Voltaram a eleger Coelho, agora numa lista independente. O PCP, antes com 55%, ficou-se pelos 15%. O mandato afinal era mesmo do presidente.
A máxima "roubo mas faço" continua a ter muita força. Mesmo na Europa. Mesmo em 2009. Mesmo no concelho com mais licenciados do país. Três conclusões a tirar da vitória de Isaltino em Oeiras: licenciaturas não fazem cidadãos, quem acha que são todos iguais não distingue o ladrão do honesto e o pragmatismo dos eleitores não está apenas acima dos partidos. Está, por vezes, acima dos princípios.
O Bloco de Esquerda julgava que bastava concorrer contra o PS em Lisboa para que o voto lhe caísse de novo no colo. Julgava que não precisava de explicar aos seus eleitores porque não estava disponível para entendimentos ou para aceitar pelouros e responsabilidades. Voltou aos resultados que tinha em 2001, dois anos depois de nascer, e perdeu quase tudo o que acumulara nos últimos oito anos na capital. Uma boa lição. Porque as derrotas, como os votos, podem ser muito úteis.
Pragmatismo a mais é falta de princípios, pragmatismo a menos é falta de bom senso. Os eleitores não têm sempre razão. Mas uma coisa é certa: nenhuma direcção partidária é dona dos votos. Daqueles que em Braga, sendo de esquerda, votaram no PSD, que em Sines se estiveram nas tintas para as confianças políticas do PCP, que em Oeiras passaram ao lado da ética pública e que em Lisboa explicaram ao Bloco que não gostaram da sua falta de flexibilidade política. Ao contrário do que muitos pensam, Portugal já não é uma partidocracia. Para o mal e para o bem, é mesmo uma democracia.
Países inseguros
Um país que fala dos brasileiros com recurso a todos os clichés que se conhecem ficou indignado com umas piadolas, velhas de dois anos, de uma actriz de novelas. Choveram artigos de opinião e petições. Mal está a auto-estima de um povo que se deixa abalar por uma tonta. Nas caixas de comentários dos sites, brasileiros e portugueses trocaram piropos: a mulher portuguesa tem bigode, a brasileira trabalha na noite, em Portugal são burros, no Brasil são miseráveis. A falta de respeito que brasileiros e portugueses mostram uns pelos outros é um bom retrato da falta de confiança que têm em si próprios.
Daniel Oliveira
Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Outubro de 2009