A Sony fez as suas reservas no mercado publicitário americano. Os números são excepcionais a todos os níveis. Para a campanha que promove o filme "2012", realizado pelo alemão Roland Emmerich com a sua habitual assinatura operática e catastrófica, a Sony vai exibir dois minutos do filme em cerca de 450 estações de televisão de todo o país. Quando: 1 de Outubro, entre as 22h50 e as 23h00. Pico do prime-time, 110 milhões de espectadores garantidos.
Roland Emmerich, que tem agora 53 anos e continua a ser um desses rapazinhos de cabelo branco e mansão muito histórica e ainda mais boémia situada no sopé de Hollywood Hills, sempre quis fazer maior e melhor, impelindo a nova aventura para os temas eternos da parábola misturada com a grande calamidade.
Desta vez é o mundo que vai acabar mesmo, tal como previram as primeiras civilizações que habitaram as pirâmides do Yucatán. Aliás, como diz o filme logo no início, já começaram os suicídios em massa. Claro que Hollywood não podia deixar passar em branco tanta boa ideia.
Pegar fogo às bilheteiras
O "2012", sobre as premonições do calendário maia apontando para a destruição planetária nessa data, tem de tudo como um Big Mac de três andares: John Cusack como pai aflito, crianças, conspiração governamental para seleccionar sobreviventes e salvar a raça humana, chuva de meteoros, terramotos, todas as raças solidárias, Amanda Peet a fazer de mãe perfeita, actores ingleses para dar gabarito, cidades esboroando-se magnificamente, o avião presidencial tentando sobreviver às marés e, até, um porta aviões dando à costa como um Titanic do apocalipse.
Essa é, por exemplo, uma das cenas que têm sido mais faladas, dado que o navio de guerra é levado por uma onda gigante que o arrasta pela costa adentro, varrendo do caminho a Casa Branca como se fosse uma carcaça de doninha fedorenta na berma da estrada.
Como a residência oficial do Presidente também já fora eliminada num filme anterior de Roland Emmerich, quando os extra-terrestres vieram de visita, a obsessão do realizador, juntamente com a sua nacionalidade e o facto de vir emparelhada a uma multinacional nipónica, tem dado que falar nos circuitos mais conservadores de Los Angeles.
Roland Emmerich von Wunderkind é conhecido pelo espectáculo das suas imagens. Se Michael Bay é o grande retratista do mundo animado, Roland Emmerich tem sido rotulado como paisagista de palco inteiro capaz de produzir um espectáculo moderno com temas antigos.
Foi ele quem apelou à autodeterminação no filme "Independence Day" e também quem, num esforço enorme de ilustração panfletária, lutou pela causa ambientalista no "The Day After Tomorrow". Hollywood gosta de Roland Emmerich. O mundo, segundo a história que conta nas bilheteira, aprecia-o ainda mais.
No novo "2012" o resultado parece ser ainda mais grandioso, como se o terceiro volume da Bíblia tivesde sido ilustrado pela National Geographic. Dado que uma das sequências mostra um tsunami a galgar os Himalaias, o filme custou cerca de 200 mil dólares, oficialmente. Só estreia a 13 de Novembro mas os media já foram convidados pela Columbia Pictures, detida pela Sony, para uma viagem promocional às praias de Cancún. Tratando-se de um desses lançamentos globais que em alemão se diz blitzkrieg, a estreia em Portugal foi agendada para 12 de Outubro.
Se o filme é sobre o fim do mundo, o alerta tem de ser geral. Além dos trailers bombásticos nos cinemas e dos anúncios nos jornais, a Sony preparou uma espécie de pelotão de fuzilamento publicitário, aquilo a que, em Hollywood se chama um roadblock.
Publicidade impossível de evitar
Não é ideia nova isto de forçar o público a confrontar uma inevitabilidade publicitária em estilo operação stop. A ideia de sinergia é isso mesmo. Dado que uma aglomerado mediático geralmente tem estúdio de cinema, estação de rádio e estação de TV, uma novidade produzida pela Universal acaba sempre por ser promovida pela NBC, porque o dono é o mesmo. A 20th Century Fox, com estúdios na Austrália e jornais em Wall Street, consegue, por vezes, organizar roadblocks de escala razoável.
A diferença está em que, desta vez, o estúdio japonês vai ter acesso a mais publicidade do que nunca, apesar de não fazer parte de uma rede mediática tentacular. Além de todas as estações de televisão da ABC, NBC e CBS, os dois minutos de filme serão ainda exibidos em 89 canais de TV por cabo, estações locais independentes nos 70 maiores mercados regionais e, adicionalmente, em muitos canais televisivos de língua espanhola. Além dos 110 milhões de telespectadores garantidos, a Sony prevê captar 30 milhões adicionais através da internet e dos telemóveis.
Como os maias só garantiram que o mundo ia acabar no solestício de Inverno, há ainda duas épocas altas que a Sony pode aproveitar. É natural que a Columbia Pictures volte a distribuir o filme nos cinemas em finais de 2011 e, até, em 2012. Se tal acontecer, a mais recente epopeia de Roland Emmerich poderá vir sob a forma de director's cut ou 3D, de maneira a esgotar completamente o formato grande ecrã (e a experiência comunitária que um filme deste género sabe usar) antes do lançamento em DVD.