Dez pessoas morreram sexta-feira em confrontos em Lhassa, a capital do Tibete, anunciou hoje a agência oficial Nova China.
"As vítimas são todas civis inocentes e morreram carbonizadas", indicou um responsável do governo regional do Tibete, citado pela agência. Entre os mortos figuram dois funcionários de hotel e dois comerciantes, indicou o mesmo responsável.
Segundo um comerciante chinês de Lhassa, contactado por telefone, "as pessoas viram monges a atacar os han (etnia maioritária chinesa) com facas". "Polícias ficaram feridos, mas os monges também atacaram pessoas na rua", afirmou. "Temos medo, encerramos as nossas lojas e estamos fechados no interior", disse.
O governo tibetano no exílio possui "informações não confirmadas" indicando que cerca de uma centena de pessoas morreram nos incidentes registados sexta-feira no Tibete, informou hoje um porta-voz da Administração Central Tibetana, Thupten Samphel.
O Executivo tibetano no exílio, estabelecido na cidade de Dharamshala, no norte da Índia, recebeu "relatórios com informações não confirmadas provenientes do Tibete" que contradizem a versão oficial das autoridades chinesas, que cifram o número de vítimas mortais em dez.
Segundo Sampel, um desses relatórios acrescenta que o Exército chinês enviou tanques de guerra para as ruas da capital para reprimir as manifestações dos monges tibetanos e população civil que protestava contra a ocupação chinesa do território.
O presidente da região autónoma do Tibete, administrada pela China, Qiang Ba, afirmou hoje que as forças da ordem não dispararam contra os manifestantes. Durante a noite, a Nova China indicou que as forças da ordem procederam a tiros de aviso.
Os confrontos abalaram sexta-feira a cidade velha de Lhassa, em particular junto ao célebre mosteiro de Jokhang, uma das referências no turismo da região, após vários dias de manifestações dos monges budistas.
Segundo o governo regional do Tibete, citado pela Nova China, nenhum estrangeiro ficou ferido durante as manifestações, as mais sangrentas em Lhassa desde a rebelião de Março de 1989.
A capital do Tibete está actualmente calma e controlada pelas forças de segurança. Tanques e veículos armadilhados patrulham as ruas, segundo testemunhas.
Protestos chegam a Nova Iorque
Várias centenas de tibetanos protestaram hoje ruidosamente perante a sede das Nações Unidas em Nova Iorque contra a violência de que são alvo os manifestantes tibetanos, dois dos quais morreram, segundo testemunhas e fontes hospitalares.
Transportando bandeiras tibetanas ou velas, os tibetanos no exílio gritaram palavras como "genocídio", "direitos do Homem no Tibete", "A China é culpada" e "Vergonha para a ONU", com a polícia nova-iorquina a seguir de perto a manifestação.
Alguns militantes agitaram cartazes e faixas nos quais escreveram frases como "a China fora do Tibete, "a China matou mais de 100 tibetanos esta
tarde" ou ainda "Parem de matar os tibetanos".
Dalai Lama comenta situação no domingo
Segundo Sampel, o chefe espiritual do Tibete, o Dalai Lama, comentará domingo, em conferência de imprensa, os incidentes em lhasa, considerados como os mais violentos registados na região nas duas últimas décadas numa conferência de imprensa.
Também a vice-presidente da Associação de Mulheres Tibetanas, Tsering Yeshi, condenou duramente os incidentes de sábado, qualificando a situação de "muito grave" e garantindo que o número de vítimas fornecido pelas autoridades chinesas peca por "falta de credibilidade".
A activista, citando testemunhas, assegurou que as autoridades chinesas infiltraram membros das Forças Armadas disfarçados de monges budistas entre os manifestantes e que a polícia reprimiu os protestos a tiro.
Os incidentes na capital tibetana ocorreram no âmbito de uma campanha de protestos empreendida desde o passado dia 10 pelos monges budistas para recordar o aniversário da fracassada rebelião tibetana contra o poder chinês em 1959, que motivou a fuga para o exílio do Dalai Lama.
Em 1950, o Tibete foi ocupado militarmente pela China e o governo de Pequim argumenta que este território faz parte do seu país.
Hu Jintao releito presidente da China
A cinco meses dos Jogos Olímpicos de Pequim, uma vitrina do poderio renovado do gigante asiático, a reeleição do presidente Hu Jintao ficou manchada pela crise no Tibete.
O número um do Partido Comunista Chinês, com 65 anos, foi hoje reconduzido por cinco anos na chefia de Estado como presidente do Parlamento, reunindo 99,7 por cento dos votos.
Depois de ter sido confirmado em Outubro na liderança do Partido Comunista, Hu recebeu, sem surpresa, o apoio de 2956 delegados num total de 2965 na Assembleia Nacional Popular (ANP, Parlamento), reunidos desde 05 de Março em Pequim para a sessão anual.
Hu Jintao foi aplaudido prolongadamente pelos delegados antes de apertar a mão do primeiro-ministro Wen Jiabao, que deve ser reconduzido domingo para um novo mandato de cinco anos pela ANP.
Os parlamentares designaram igualmente como vice-presidente Xi Jinping, de 54 anos, o provável sucessor de Hu Jintao como líder do partido em 2012.