O presidente do Conselho Nacional das Escolas (CNE) disse hoje à Lusa que há um "alarmismo desnecessário" em torno do tema da violência nas escolas, que, sublinha Álvaro Almeida dos Santos, "traz mais desvantagens do que vantagens".
Referindo-se aos últimos casos - o rapaz desaparecido no rio Tua
, em Mirandela, e do professor que se suicidou
em Fitares (Rio de Mouro, Sintra) -, Álvaro Almeida dos Santos considerou que se gerou um "alarmismo desnecessário, incapacitante do pensamento e prejudicial a todos".
Aproveitamento "chocante"
"Não desvalorizando estes casos, que, obviamente, são dramáticos e preocupantes, o aproveitamento que se tem feito disso para o desmerecimento do trabalho das escolas é chocante", sustentou o responsável.
"É evidente que o Conselho das Escolas está preocupado com estas notícias, mas temos que perceber que o bullying
não nasceu agora nem terminará agora", acrescentou o presidente daquele órgão consultivo do Ministério da Educação.
Álvaro Almeida dos Santos admitiu que as escolas são "responsáveis pelos casos de violência que se têm assistido, mas não são as únicas".
Apelos à pacificação e serenidade
"É necessário uma pacificação da sociedade portuguesa, gerar um clima de serenidade e acabar com este quase histerismo coletivo, para que as escolas possam ter meios para dar resposta a estes problemas", concluiu.
O rapaz de Mirandela desapareceu a 02 de março no rio Tua, depois de ter abandonado a escola a meio do dia, na companhia de amigos e, segundo alguns relatos, ter-se-á suicidado depois de alegadamente ter sido agredido várias vezes por outros estudantes dentro do estabelecimento de ensino. Já as autoridades policiais acreditam na possibilidade de uma brincadeira que acabou de forma trágica, segundo fontes ligadas ao processo.
O professor de Música da Escola Básica 2.3 de Fitares, de 51 anos, suicidou-se a 9 de fevereiro, deixando uma mensagem em que se queixava da indisciplina dos seus alunos.
Reservas na transferência de competências para autarquias
A ligação entre escolas e municípios, a responsabilidade financeira na contratação de funcionários e a questão do pessoal não docente estão a gerar algumas reservas nas autarquias em relação à transferência de competências na área da educação.
"Há municípios que têm uma preocupação de melhoria na qualidade do serviço educativo para desenvolver o capital social e humano das populações", disse à Lusa o presidente do Conselho Nacional das Escolas, Álvaro Almeida dos Santos, à margem do Encontro do Conselho das Escolas que decorreu hoje em Cascais.
Num dia que o responsável considerou "extremamente positivo", o debate gerou-se em torno dos municípios e das competências que têm na área da educação.
Descentralização obrigatória
Um dos conferencistas do evento foi David Justino, ex-ministro da Educação e atual assessor do Presidente da República, Cavaco Silva, para esta área, que sublinhou a importância da descentralização de competências para os municípios, um fator que considera ser "obrigatório".
"A descentralização do sistema educativo é obrigatória, porque é um reconhecimento de que o Estado não tem a capacidade de dar resposta a todas as questões educativas do mesmo modo que tinha há 30 anos", afirmou.
David Justino considerou ainda que a articulação entre Ministério da Educação, autarquias, escolas e comunidade determinará o futuro do sistema educativo do país.
"A educação é excessivamente importante para ser deixada só aos burocratas do Ministério da Educação e compete às autarquias assumir o compromisso de gestão, planeamento e mobilização para a concretização dos objetivos", concluiu.
No Encontro do Conselho das Escolas, realizado hoje na Casa das Histórias Paula Rego, em Cascais, vários professores, diretores escolares, autarcas e diversos especialistas na matérias debateram a questão da "Territorialização da Educação", um tema que serviu para avaliar modelos e perspetivas de intervenção local e aprofundar as competências atribuídas aos municípios.
Este texto foi escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
Nota da Direcção do Expresso
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