"Whatever Works" é uma obra-prima com lições para toda a vida.
Lembram-se daquela piada do Woody Allen, aliás Alvy Singer, em que ele está numa convenção de apoio ao Adlai Stevenson e diz que... humm... é interessante... humm... andou uns tempos com uma miúda que trabalhava para a Administração Eisenhower e era irónico porque... humm... andava a tentar fazer-lhe o que o Eisenhower andava a fazer ao país nos últimos oito anos.
A piada faz parte do filme "Annie Hall". Em Portugal, o comediante tinha levado com um processo judicial por difamação mas na América é possível dizer isto e muito pior e escapar ileso. E se em vez de falarmos da América falarmos de Nova Iorque, a violência aumenta. Basta ver o que Larry David diz da América no último filme de Woody Allen, "Whatever Works". O filme é o regresso do Woody de "Annie Hall" e o regresso a Nova Iorque.
Depois de "Vicky Cristina Barcelona" (2008), um arremedo grotesco de um filme de Almodóvar, Woody parecia estar a perder-se. O filme de Barcelona, e Woody filma tanto as cidades como as histórias, era um exercício de imitação e voyeurismo no território neurótico europeu. Nada daquilo tinha a ver com o mais cómico judeu americano nem com as suas filiações estéticas e ideológicas. Quem nasce em Brooklyn e é educado pelo humor e o schtick que ia das Catskills às caves da Village, quem é um dos 'pais espirituais' de Seinfeld e Larry David, não pode filmar espanholas à beira de uma crise de nervos.
Desde que Woody se separou das suas mulheres, notava-se a incapacidade de arranjar um alter ego que o representasse no ecrã (ele deixou de querer aparecer) e uma musa que lhe apetecesse filmar. "Whatever Works" é o feliz encontro com estes dois. Com Evan Rachel Wood, a menina do costume (descendente de Mariel Hemingway em "Manhattan"), e Larry David, uma espécie de Woody Allen da televisão, com a mesma secura e exasperação, algum talento intelectual e menos obsessões metafísicas (lembra aquela piada de "Annie Hall" em que ele diz que foi apanhado a copiar na aula de metafísica porque espreitou para a alma do aluno do lado).
"Whatever Works" é uma pequena obra-prima. E descende em linha recta de "Annie Hall", a grande obra-prima. O que demonstra que ele não só não perdeu qualidades como ganhou com a passagem do tempo. A América 'submental' e cheia de gente com cérebros de pigmeu, a América redneck e com licença de porte de arma, a América da Bíblia e dos psicopatas e evangelistas, de Bush e dos neocons, de Hollywood e Wall Street, é uma gargalhada neste filme. Uma das cenas mais delirantes, dentro do Museu de Figuras de Cera, serve de palco para a verdadeira discussão sobre os 'valores americanos', embora as duas actrizes, mãe e filha, discutam o valor de um casamento com um homem que seja tudo menos um áspero e amargo ex-professor de Física Quântica que esteve quase a ganhar um Prémio Nobel e que se julga um génio embora viva na miséria e dê aulas de xadrez a crianças estúpidas de mais para aprenderem xadrez.
A mulher do génio, uma jovem nativa do Mississipi que o génio trata por indígena e atrasada mental, acaba por ser o ponto de convergência da história e das personagens. E, apesar de Larry David ser perfeito a fazer este Woody extremado, o que redime o filme, e o sarcasmo geral do script, é a figura da rapariga. Filmada por Woody Allen com uma ternura insuspeitada, nimbada de luz como num quadro impressionista (e os efeitos que este olhar consegue são novos, longe do preto e branco de "Manhattan" e dos cinzentos do período Farrow), a figura da rapariga é um poema romântico. Parece Kazan a filmar Elizabeth Taylor ou Natalie Wood, sem a carga trágica. A oposição constante entre o envelhecimento de Larry/Boris e a juventude dela reinstalam Woody Allen como um cineasta supremo que aprendeu a envelhecer e a contemplar. Há uma nova aceitação e um sopro de alegria nesta comédia. Uma pastoral da boémia downtown com o seu meio académico e artístico. As sequências exteriores (e o filme é quase uma peça de teatro, filmado em interior e com as convenções da voz teatral) são quadros de luz em que Woody Allen presta homenagem à juventude e beleza dos dois actores jovens, a rapariga e o rapaz pelo qual deixa o génio. Os dois actores são talvez os mais belos actores que Woody usou até hoje, e sabe-se como a meia-idade é o território particular que ele explora. A meia-idade ficou para trás. O encontro determinante entre a juventude ("Sweet Bird of Youth", Tennessee Williams) e a decrepitude; à decrepitude resta-lhe ser irónica e sarcástica, inteligente e, acima de tudo, lúcida. A lucidez é o que resta quando a beleza se vai. E a aceitação de que temos de nos contentar com o que calha. Whatever works. Desde que nos dê uma medida de graça. A vida em colherinhas de café de que falava o Prufrock de T.S. Eliot. Woody Vintage, tantos anos depois.
Texto publicado na edição da Única de 6 de Março de 2010