Parece um simples carro de golfe, com um 'tuning' de câmaras de vídeo, mas a tecnologia incorporada no IRPS, acrónimo de Intelligent Robotic Porter System teve um orçamento de 3,54 milhões de euros.
Ora, investir mais de três milhões de euros num carro de golfe deve ter um motivo, e esse motivo é tudo o que comanda o buggy, isto é, a recolha e o processamento central da informação.
O 'cérebro' do IRPS baseia-se em software que observa e interpreta o espaço à sua volta, para ser capaz de efectuar trajectos complexos do ponto A ao ponto B, seja em Faro, em Heathrow ou num outro qualquer grande edifício que apresente obstáculos a contornar. Demonstrado pela primeira vez no Aeroporto Internacional de Faro, onde decorreram todos os testes necessários ao seu desenvolvimento, o IRPS demonstrou ser capaz de identificar o espaço, criando uma matriz 3D a partir de um varrimento laser em vários eixos, que utiliza em seguida como referência para efectuar um trajecto solicitado.
Pensado para ajudar no transporte de pessoas com mobilidade reduzida, com deficiência ou até simplesmente com dificuldades de orientação, o IRPS poderá, no futuro, efectuar um sem número de outras tarefas, tais como desactivação de bombas, manuseamento de materiais perigosos, movimentação de cargas ou peças para efeitos de manutenção. O veículo pode também ser controlado por comando remoto, inclusive através da Internet.
Como funciona
O consórcio desenvolveu um "robot", que se move e transmite os dados em tempo real para uma interface central, com processadores de alto rendimento. O IRPS detecta movimentos ou obstáculos, e pode deslocar-se a uma velocidade de até 5 metros por segundo.
A tecnologia LIMS (LIDAR Imaging and Measurement System) funciona um pouco como o ecosonar dos morcegos (mas aqui não há som), emitindo raios laser, o que permitiu "um avanço a nível mundial da interacção do sistema robótico com seres humanos" - disse João Nuno Fernandes, responsável do projecto na Ana, Aeroportos SA, um dos parceiros envolvidos.
Isto porque até aqui os sistemas de posicionamento de visão robótica possuíam um nível de precisão insuficiente, não permitindo a sua utilização eficaz em zonas frequentadas com muita gente. Outro dos problemas é a dificuldade em utilizar o posicionamento por satélite - GPS - que não funciona dentro de alguns edifícios.
"Os robots de hoje em dia não conseguiam, por exemplo, passar numa porta, algo que este faz com facilidade", adianta ao Expresso Maurice Heintz, coordenador dos vários parceiros do projecto.
"Penso que estamos com uma qualidade de ciência bastante boa em Portugal, temos projectos reconhecidos internacionalmente, mas Portugal às vezes não aproveita muito isso e este projecto permite tornar a tecnologia disponível", acrescenta Jorge Miranda Dias, responsável pelo Departamento de Engenharia Eléctrica e Computadores da Universidade de Coimbra.
O consórcio envolve, para além da ANA, empresas francesas, polacas, canadianas, israelitas e britânicas, bem como a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra que desenvolveu o sistema de algoritmos para a programação do robot.
A ANA Aeroportos é um dos clientes finais, o outro é o Aeroporto de Toulouse, em França.