A convicção de Raphael Gomide, 32 anos, de que a polícia militar do Rio de Janeiro é "a que mais mata e morre no Brasil e, possivelmente, no mundo" é, desde logo, corroborada pela frieza dos números: 1330 civis e 151 agentes desta força morreram em confrontos, em 2007.
O jornalista da delegação do Rio de Janeiro do diário "A Folha de São Paulo" quis perceber o que anima um jovem a ingressar no lado oficial da batalha e qual a preparação que recebe para enfrentar os inquilinos mais violentos do labirinto das favelas. E se não é o salário de 350 euros e o desprezo que lhe dirige uma parte da sociedade que os motiva, o que levou dois mil candidatos a bater à porta deste departamento de segurança em 2007? "Os criminosos, ou mesmo não criminosos mas que por algum motivo são suspeitos, rendem-se muitas vezes mas são mortos à mesma pela polícia.
"Rendeu, fuzilou!"
Eu queria entender de que maneira o curso de formação de soldados podia influenciar o comportamento no activo e pensei que a melhor forma de o fazer era passar por recruta e, assim, evitar os filtros que os soldados e oficiais teriam se os entrevistasse como jornalista", explica. O disfarce foi usado durante sete meses de pré-selecção - com exames de aptidão física e psicológica - e um mês de treino depois de ter sido recrutado. Nessas quatro semanas finais, o jornalista teve algumas boas surpresas como a ausência de sinais de humilhação dos cadetes e o "discurso contra a corrupção, com muitos alertas para este problema que é recorrente". Mas nos seus jeans e camiseta branca de recruta, Gomide testemunhou muitas mensagens - às vezes mais subliminares, outras menos - de desdém pelo respeito dos direitos humanos e pela própria lei.
"O que mais me chocou foi o facto de não só haver tolerância como estímulo à violência policial. Ouvi frases tais como: "Estou trocando tiro com vagabundo na favela e ele diz que perdeu e se rende? Perdeu nada! Vou-te matar, você vai morrer. Estava me dando tiros até agora, por isso vai morrer!". Havia um oficial que dizia "Rendeu, fuzilou!" e um outro instrutor que ensinava a encenar uma situação de legítima defesa, aconselhando o polícia que matou alguém pelas costas a colocar depois a arma na mão do suspeito. No fim acabavam por dizer que aquilo não era o que deviam aprender ali, mas que acabariam por o aprender nas ruas", explicou.
"Tropa de Elite": realidade e ficção
Antes de sugerir a reportagem como infiltrado, o jornalista tinha lido o livro de um sociólogo sobre esta força muito marcada "pelos valores castrenses, com saudações militares, muita ordem e unidade". Mas outro produto cultural, lançado em 2007, faria muito mais pela divulgação de algumas facetas da vida destes soldados: o filme "Tropa de Elite", que fez um retrato ficcionado do BOPE. "O filme teve um impacto enorme, com toda a gente a discuti-lo durante dois meses. Foi pirateado e mais de cinco milhões de cópias foram vendidas nas ruas. O BOPE é uma força de operações especiais dentro da própria polícia militar e há um certo mito à sua volta porque são considerados violentos e dados a excessos. Qundo fiz o concurso público para integrar a academia, o filme tinha sido lançado nesse altura e ouvi muitos recrutas a dizer que o tinham visto cinco vezes, que vibravam e repetiam as frases dos actores", conta Gomide.
Este entusiasmo com uma vida de "faroeste" explica-se também porque muitos dos novos polícias são familiares ou amigos de outros agentes - e querem por vezes vingar-se da perda de algumas dessas vidas. Mas o jornalista considera grave que a sociedade veja a "violência policial como uma solução plausível" e que seja complacente com a execução da justiça pelas mãos dos agentes, já para não falar de que muitas vezes caem por terra inocentes. "De facto, alguns criminosos são bárbaros e cometem crimes horríveis como torturar e queimar pessoas vivas, ma o Estado não pode assumir esse tipo de postura.
Eu trabalho na "Folha de São Paulo" que tem muito impacto nacional mas que não tem uma circulação tão ampla no Rio de Janeiro como, por exemplo, "O Globo". A polícia disse que introduziu algumas alterações na formação devido à reportagem, sobretudo ao nível da denúncia de situações pelos cadetes. Mas se a reportagem tivesse sido publicada no "O Globo", que tem também rádio e televisão no mesmo grupo, o impacto teria sido maior e talvez o comandate tivesse até sido demitido", argumenta.Mas os dias de suor e cansaço, tensão e camaradagem continuam ainda hoje a ter repercussão na vida do jornalista e a reportagem tem sido pretexto para debater o problema.
O polícia como vítima
Raphael Gomide foi convidado para participar em várias conferências e venceu o Grande Prémio de Jornalismo Lorenzo Natali 2008, da União Europeia, que recebeu no passado dia 22 de Outubro, em Estocolmo, num evento organizado pela presidência sueca da UE. No ano que vem, o jornalista vai publicar um livro sobre o tema através da editora Objectiva [grupo espanhol Santillana]. Na "Folha de São Paulo", Raphale Gomide tem planos para fazer, a curto prazo, uma reportagem sobre os polícias enquanto vítimas desta guerra civil, já que muitos são "assassinados fora do tempo de serviço devido a vinganças" daqueles que não chegaram a prender.