Um jovem bem intencionado, amigo do alheio, tentou entrar num supermercado em Almancil, no Algarve, através de uma janela estreita. Ficou entalado, sem se poder mexer, durante toda a noite.
A imagem de um rabo e pernas nuas a emergirem de uma parede surpreendeu. Muitos foram os populares que se aproximaram do supermercado para ver as alvas pernas do jovem, de calças arreadas. O resgate do furtivo cliente do supermercado, pelos bombeiros de Loulé, foi um êxito.
Mas um azar nunca vem só. As pernas e as cuecas do jovem continuam a passear-se (mera força de expressão porque estiveram imobilizadas) pelo YouTube em bolandas planetárias. Não vem daí grande mal porque quem vê cuecas não vê caras. E quem vê caras não vê corações. Mas não é difícil imaginar que o jovem tenha passado as passas do Algarve, encalacrado durante oito horas, com o coração desfeito.
O acontecimento e o vídeo que o cobre podm ter grande valor educativo. Nomeadamente para as aulas da disciplina de Formação Cívica, leccionada no 2º e 3º ciclo do Ensino Básico. Mas não é adequado para alguns conteúdos desta disciplina que compreendem, agora, matérias de Educação Sexual. Os professores andam atarantados, nas escolas, a inventar estratégias para leccionar estes conteúdos. Podem ser tentados a socorrer-se das novas tecnologias, e de imagens fortes da Internet, para estimular aprendizagens. Um alerta. Não é aconselhável ensinar Educação Sexual através de vídeos desta natureza. As imagens podem sugerir erroneamente que houve tentativa de sexo com uma parede. Improvável. Até porque as paredes têm mais pruridos que alguns humanos.
Já para os outros temas da disciplina de Formação Cívica, não vejo inconveniente na utilização deste tipo de imagens. As aulas desta disciplina têm a reputação de ser das de maior bagunça nas escolas básicas. Os seus conteúdos são desajustados, pouco menos que inúteis e de difícil assimilação porque nunca foram ouvidos lá em casa. E a avaliação da disciplina acaba por ser um embuste a contento de pais ausentes.
Sem a responsabilidade de uma disciplina a sério, as aulas de Formação Cívica servem, no essencial, para desresponsabilizar alunos irrequietos e azucrinar a cabeça de professores inquietos. Estes, em desespero de causa, vão pregando sermões de civismo no vazio. Os alunos aprendem alguma coisa. Passam a ser mais indisciplinados. E a saber que há disciplinas melhores para a indisciplina. É certo que sempre haverá alunos que passarão pela escola sem nela deixarem saudades. Ou, pior ainda, sem dela terem saudades.
Mas para outras áreas da Formação Cívica o vídeo tem virtualidades. Pode permitir esclarecer que, para jovens carentes de guloseimas, dinheiro fácil ou roupa de marca, é mais simples usar um pé-de-cabra - essa grande criação do génio intruso - do que entrar num supermercado por uma janela minúscula, pouco moldável ao corpo humano. Ou mesmo tentar as infinitas artimanhas que os jovens delinquentes usam hoje para infernizar a vida dos cidadãos. Umas mais aselhas do que outras. Mas todas com o mesmo destino traçado: ficha na polícia ou enxerga no xelindró. Em suma, vidas entaladas!