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Vertigem suicida

Fernando Madrinha (www.expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 8 de janeiro de 2010

Para cada ano novo que chega vamos baixando a fasquia das expectativas, limitando-nos a desejar que o próximo não seja ainda pior do que o anterior. E, mesmo assim, não há quem esteja seguro de que os votos mais modestos para 2010 venham a ser correspondidos.

Se não fosse o primeiro-ministro a falar de "esperança" e de "confiança" na sua mensagem de Natal - embora com um ar tão abatido que a expressão parecia contradizer as palavras que dizia -, não teríamos ninguém a ver na actual conjuntura sinais que permitam encarar 2010 com "confiança". Quanto à "esperança", essa é natural que persista, já que dizem ser a última a morrer.

Sócrates insiste na perspectiva optimista por pertinácia e amor-próprio, mas também por dever de ofício. Afinal, não lhe resta alternativa. E não se espera de um líder político que faça o discurso do pessimismo e da desistência. A menos que acompanhe esse discurso de um pedido de demissão, como fez António Guterres perante a iminência do "pântano". Sócrates, já se sabe, não é feito da mesma massa. Tudo indica, na sua personalidade e na sua atitude perante o exercício do poder - a resistência no 'caso Freeport' foi bem elucidativa -, que só poderá demitir-se um dia por razões de força maior e alheias à sua vontade, ou, então, por ainda acreditar que pode regressar de novo e com mais força.

É talvez nisto que pensa quando assume o conflito aberto com o Parlamento e já não disfarça o mal-estar do PS na relação com o Presidente da República. Mas uma estratégia de ruptura e desafio como a de precipitar eleições na expectativa de melhorar a sua posição - seja através de uma nova maioria absoluta do PS ou de um acordo, pré ou pós-eleitoral, para governar de modo menos periclitante - carece de uma oportunidade perfeita. E pressupõe uma força política que dificilmente o primeiro-ministro e líder do PS ainda terá quando e se essa oportunidade surgir.

A dramatização acerca da 'governabilidade' sugere que os socialistas podem entrar nesse jogo de escalada se as oposições lhes derem bons pretextos, já a partir do debate do Orçamento. E a situação interna do PSD, com uma líder derrotada uma vez nas urnas e demissionária, sem sucessor à vista que lhe augure as melhores perspectivas, é uma tentação para o PS. Só que a reedição do modelo Cavaco/1985, em que um Governo minoritário se foi impondo pelo combate político e, dois anos depois, acabou por derrotar clamorosamente as oposições nas urnas, é uma vertigem perigosa. Nem o Governo que aí está é um Governo de combate, bem pelo contrário, nem Sócrates tem já a frescura e a força políticas que Cavaco tinha na altura e que o actual primeiro-ministro manteve até meio do seu anterior mandato. Ou que qualquer novo líder do PSD terá numa primeira fase. A noção desta realidade acabará por se impor ao PS e a Sócrates. E desmotivá-los-á de tentações aventureiras que, a existirem de facto, não só correm o risco de serem contrariadas por Belém como, muito provavelmente, redundariam num suicídio político.

Basta um espirro


Cinco dias será muito ou pouco tempo para a EDP repor o fornecimento de energia aos milhares de clientes que foram vítimas, tal como a própria EDP, do temporal na região do Oeste? Não sei. E muitos dos que protestam, acusam, denunciam, provavelmente também não sabem.

Os autarcas queixam-se, é certo. Mas os autarcas queixam-se sempre que os seus eleitores sofrem prejuízos e incómodos como os que sofreram e estão a sofrer os do Oeste. Mesmo que também eles, autarcas, não estejam isentos de responsabilidades. Por exemplo, a Associação dos Técnicos de Segurança e Protecção Civil diz que a maior parte das autarquias não estão preparadas para lidar com um espirro da natureza, quanto mais com a sua fúria. E que muitos dos serviços municipais de protecção civil não têm técnicos especializados nem sequer comandantes nomeados. Só que, logo de seguida, a Associação lembra que muitos desses técnicos estão no desemprego. E o cidadão interroga-se: será que a Associação diz a verdade, ou dramatiza a situação mais do que o devido só para, em nome do interesse geral, defender o interesse particular dos seus representados?

Comparado com muitos Estados e regiões do mundo - e não é preciso ir à Índia nem ao Bangladesh - Portugal tem sido um país abençoado. Raramente a natureza se enfurece mais do que é normal e previsível, o que temos que lhe agradecer do fundo do coração, pois sempre que ela se agita um pouco mais, o nosso sentimento de insegurança colectiva aumenta exponencialmente. Menos pela imensidão dos dramas provocados por este temporal ou por aquele incêndio florestal e mais pela gritaria que se gera, pelas denúncias e acusações cruzadas entre pessoas e serviços incumbidos de acudir às populações e resolver os seus problemas.

Entre o alerta amarelo mil vezes repetido e a fotografia do ministro Rui Pereira reunido com o estado-maior da Protecção Civil na madrugada de um sismo sem consequências, não se sabe o que mais admirar quanto à encenação da prontidão e eficácia. Mas basta um pequeno desmando da natureza como o da véspera de Natal para ruir toda a ilusão de segurança e desabar uma chuva de acusações e críticas por impreparação e incapacidade. O melhor mesmo é rezar para que o nosso sistema de protecção civil nunca seja verdadeiramente posto à prova.

Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Dezembro de 2009

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Sócrates
cjours (seguir utilizador), 2 pontos , 16:33 | Sexta feira, 8 de janeiro de 2010
Gostem ou não dele, digo-vos eu uma coisa e podem escrevê-lo: VÃO LEVAR COM O SÓCRATES MUITOS MAIS ANOS DO QUE AQUELES QUE VOCÊS PENSAM!!!!!
A BEM DA NAÇÃO!!!!!!
Mais de resto, um excelente texto, como de costume!
 
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    OH MASOQUISTA, GOSTAS DE LEVAR COM O SÓCRATES    Ver comentário
AUGUSTO ROSA (seguir utilizador), 1 ponto , 12:56 | Quinta feira, 14 de janeiro de 2010
    Re: OH MASOQUISTA, GOSTAS DE LEVAR COM O SÓCRATES    Ver comentário
cjours (seguir utilizador), 2 pontos , 15:41 | Quinta feira, 14 de janeiro de 2010
    Re: DIA IMPAR , DIA SOCRATISTA???    Ver comentário
AUGUSTO ROSA (seguir utilizador), 1 ponto , 16:35 | Quinta feira, 14 de janeiro de 2010
    Re: DIA IMPAR , DIA SOCRATISTA???    Ver comentário
cjours (seguir utilizador), 2 pontos , 17:32 | Quinta feira, 14 de janeiro de 2010
Vertigem suicida
Toni 2 (seguir utilizador), 2 pontos , 16:44 | Domingo, 10 de janeiro de 2010
Talvez porque o tempo está meio chuvoso, com céu cinzento e lá fora um frio de rachar, espreito o mar e não me parece muito agitado. De qualquer maneira uma força me diz para escrever, outra me puxa para não o fazer. Estou assim sem saber muito bem porquê, como está o País e por arrasto o Primeiro Ministro. Somos confrontados a toda a hora com a crise e as consequências que daí adveem. Olhando para a Oposição que é quem nestas circunstâncias pode dar algum alento de esperança, não será por ela que posso continuar a acreditar que a esperança é a última coisa a morrer. É sem duvida nenhuma de louvar o Zé sózinho a remar contra a maré. Sei que se trata de uma cepa Transmontana, com enchertia Beirã, mas na verdade se não é teimosia é no minímo determinação de continuar a puxar por uma carroça, que qualquer burro tinha desistido se não morrido antes de ter tentado. Foi assim que o burro do moleiro, um dia deitou a carga ao chão, porque o seu dono tanto o carregava, que um dia ao encontrar uma pena no caminho, resolveu apanhá-la e metê-la no meio dos sacos de trigo. Não se cansava o moleiro de tentar envergonhá-lo como podia ser tão reles que nem com uma pena podia, esquecendo a quantidade de sacos que tinha em cima.
 
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Os espirros associativos
CãodaRosa (seguir utilizador), 1 ponto , 12:32 | Sexta feira, 8 de janeiro de 2010
Começo por me referir à passagem relacionada com a Protecção Civil e as referências que lhe são feitas pelo presidente de uma tal Associação de Técnicos de Segurança e Protecção Civil. As declarações deste senhor são reveladoras do estado em que se encontra o país, ou seja, condicionado por interesses particulares e corporativos, nesta e outras áreas. O mencionado senhor não tem vergonha, veio a público denunciar eventuais fragilidades do sistema nacional de protecção civil, que as tem, não pelo interesse na causa pública mas para procurar emprego para os seus associados, pelos vistos, desempregados. A Protecção Civil, não sendo um modelo de funcionamento, exagera nos alertas por tudo e por nada, mas responde no essencial às necessidades das populações. A úncia coisa é ter uma estrutura pesadíssima, transformou-se numa agência de emprego de tios, sobrinhos e afilhados, tem Comandantes e mais comandantes, Nacionais, Distritais, Concelhios, segundos comandantes, adjuntos de operações, operadores e técnicos de tudo e mais alguma coisa.É esta a única crítica a fazer-lhe e ainda vem o "patego" do presidente associativo reclamar emprego para os seus pares. Valha-nos Deus. Os custos que uma estrutura destas tem são imensos, reduzam os cargos, diminuam a massa salarial e canalizem dinheiro para a ajuda de quem eventualmente venha a dele necessitar num cenário de catátrofe. Para mais técnicos, volto a apelar ao Divino, NÃO. Quanto à EDP é o que sabe existe para dar lucro, muito lucro
 
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Ao Eng. Sócrates cabe governar!!!
costinha79 (seguir utilizador), 1 ponto , 18:20 | Sexta feira, 8 de janeiro de 2010
O nosso actual Primeiro-Ministro já demonstrou ser uma pessoa com tenacidade, aguerrida, lutador e teimoso!!!!

A ele cabe governar nas condições que os eleitores fizeram questão de demonstrar!!!!

Os jogos de vitimização e de querela política são pura futilidades, propagandismo, populismo e demagogia!!!!

Que se concentre em governar bem que é para isso que nós lhe pagamos com os nossos impostos!!!!

Mais instabilidade política por agora seria desastroso para o nosso país e o povo não toleraria!!! Parte da oposição que é responsável também está ciente disso e certamente que o próximo Orçamento passará sem grandes dificuldades!!!!
 
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O "Management" sem optimismo é um falhanço.
PIANINHO (seguir utilizador), 1 ponto , 23:35 | Domingo, 10 de janeiro de 2010
Não consigo entender que alguém que seja PM ou que esteja na oposição e pretenda candidatar-se a esse cargo, que não seja optimista, ainda que por vezes seja indispensável tentar limitar as contrariedades, que se lhe possam colocar pelo caminho que tenha de percorrer.

Um líder sem optimismo é um falhado em projecção, incapaz de com mestria, traçar objectivos futuros, a toda a equipe ao seu dispor, para que com ele colabore.

Macambúzio e sem um ar sorridente, nem reconheço essa gente com liderança, não passam de patrões bem vestidos, que dão ordens indiscriminadamente, só com a ideia da cega obediência, do subordinado insosso e sem capacidade de se afirmar.

Acreditar no "chefe" na sua dinâmica, alegre com um sorriso nos lábios, é meu caminho andado para se vencer no governo, na empresa, até na guerra os generais tem de ser optimistas, caso contrário perdem as batalhas.

 
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Optimista...
M.Farid (seguir utilizador), 1 ponto , 13:44 | Quinta feira, 14 de janeiro de 2010
...é um pessimista mal informado.(Woody Allen)
 
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