Para cada ano novo que chega vamos baixando a fasquia das expectativas, limitando-nos a desejar que o próximo não seja ainda pior do que o anterior. E, mesmo assim, não há quem esteja seguro de que os votos mais modestos para 2010 venham a ser correspondidos.
Se não fosse o primeiro-ministro a falar de "esperança" e de "confiança" na sua mensagem de Natal - embora com um ar tão abatido que a expressão parecia contradizer as palavras que dizia -, não teríamos ninguém a ver na actual conjuntura sinais que permitam encarar 2010 com "confiança". Quanto à "esperança", essa é natural que persista, já que dizem ser a última a morrer.
Sócrates insiste na perspectiva optimista por pertinácia e amor-próprio, mas também por dever de ofício. Afinal, não lhe resta alternativa. E não se espera de um líder político que faça o discurso do pessimismo e da desistência. A menos que acompanhe esse discurso de um pedido de demissão, como fez António Guterres perante a iminência do "pântano". Sócrates, já se sabe, não é feito da mesma massa. Tudo indica, na sua personalidade e na sua atitude perante o exercício do poder - a resistência no 'caso Freeport' foi bem elucidativa -, que só poderá demitir-se um dia por razões de força maior e alheias à sua vontade, ou, então, por ainda acreditar que pode regressar de novo e com mais força.
É talvez nisto que pensa quando assume o conflito aberto com o Parlamento e já não disfarça o mal-estar do PS na relação com o Presidente da República. Mas uma estratégia de ruptura e desafio como a de precipitar eleições na expectativa de melhorar a sua posição - seja através de uma nova maioria absoluta do PS ou de um acordo, pré ou pós-eleitoral, para governar de modo menos periclitante - carece de uma oportunidade perfeita. E pressupõe uma força política que dificilmente o primeiro-ministro e líder do PS ainda terá quando e se essa oportunidade surgir.
A dramatização acerca da 'governabilidade' sugere que os socialistas podem entrar nesse jogo de escalada se as oposições lhes derem bons pretextos, já a partir do debate do Orçamento. E a situação interna do PSD, com uma líder derrotada uma vez nas urnas e demissionária, sem sucessor à vista que lhe augure as melhores perspectivas, é uma tentação para o PS. Só que a reedição do modelo Cavaco/1985, em que um Governo minoritário se foi impondo pelo combate político e, dois anos depois, acabou por derrotar clamorosamente as oposições nas urnas, é uma vertigem perigosa. Nem o Governo que aí está é um Governo de combate, bem pelo contrário, nem Sócrates tem já a frescura e a força políticas que Cavaco tinha na altura e que o actual primeiro-ministro manteve até meio do seu anterior mandato. Ou que qualquer novo líder do PSD terá numa primeira fase. A noção desta realidade acabará por se impor ao PS e a Sócrates. E desmotivá-los-á de tentações aventureiras que, a existirem de facto, não só correm o risco de serem contrariadas por Belém como, muito provavelmente, redundariam num suicídio político.
Basta um espirro
Cinco dias será muito ou pouco tempo para a EDP repor o fornecimento de energia aos milhares de clientes que foram vítimas, tal como a própria EDP, do temporal na região do Oeste? Não sei. E muitos dos que protestam, acusam, denunciam, provavelmente também não sabem.
Os autarcas queixam-se, é certo. Mas os autarcas queixam-se sempre que os seus eleitores sofrem prejuízos e incómodos como os que sofreram e estão a sofrer os do Oeste. Mesmo que também eles, autarcas, não estejam isentos de responsabilidades. Por exemplo, a Associação dos Técnicos de Segurança e Protecção Civil diz que a maior parte das autarquias não estão preparadas para lidar com um espirro da natureza, quanto mais com a sua fúria. E que muitos dos serviços municipais de protecção civil não têm técnicos especializados nem sequer comandantes nomeados. Só que, logo de seguida, a Associação lembra que muitos desses técnicos estão no desemprego. E o cidadão interroga-se: será que a Associação diz a verdade, ou dramatiza a situação mais do que o devido só para, em nome do interesse geral, defender o interesse particular dos seus representados?
Comparado com muitos Estados e regiões do mundo - e não é preciso ir à Índia nem ao Bangladesh - Portugal tem sido um país abençoado. Raramente a natureza se enfurece mais do que é normal e previsível, o que temos que lhe agradecer do fundo do coração, pois sempre que ela se agita um pouco mais, o nosso sentimento de insegurança colectiva aumenta exponencialmente. Menos pela imensidão dos dramas provocados por este temporal ou por aquele incêndio florestal e mais pela gritaria que se gera, pelas denúncias e acusações cruzadas entre pessoas e serviços incumbidos de acudir às populações e resolver os seus problemas.
Entre o alerta amarelo mil vezes repetido e a fotografia do ministro Rui Pereira reunido com o estado-maior da Protecção Civil na madrugada de um sismo sem consequências, não se sabe o que mais admirar quanto à encenação da prontidão e eficácia. Mas basta um pequeno desmando da natureza como o da véspera de Natal para ruir toda a ilusão de segurança e desabar uma chuva de acusações e críticas por impreparação e incapacidade. O melhor mesmo é rezar para que o nosso sistema de protecção civil nunca seja verdadeiramente posto à prova.
Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Dezembro de 2009