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Vermelhos de indignação

Nicolau Santos (www.expresso.pt)
8:00 Segunda feira, 16 de novembro de 2009

Os contribuintes portugueses deveriam estar vermelhos de raiva e indignação. E deveriam porque têm sobejas razões para isso. Já todos estamos habituados às derrapagens nos custos das obras públicas, que depois são pagas através de mais impostos e todo o tipo de taxas que nos vêm buscar aos bolsos. Mas apesar de constatarmos, há muitos anos, situações deste tipo, continuamos todos à espera que as autoridades, não obstante a desfaçatez e pouca vergonha dos envolvidos, ponham um limite a estas derrapagens. Esperamos mal. Pelos vistos, estamos redondamente enganados.

As últimas seis concessões de auto-estradas adjudicadas pela Estradas de Portugal apontavam para um custo total, segundo as estimativas iniciais do Governo, de €2790 milhões. A factura final, contudo, vai ficar em €3900 milhões. Ou seja, a módica derrapagem é de €1110 milhões, mais 39,7% que o inicialmente estimado!

Valha-nos que o Tribunal de Contas (TC), dirigido por Guilherme de Oliveira Martins, recusou o visto a duas das concessões (Douro Interior e Transmontana), onde os custos cresceram 120 milhões e 177 milhões, respectivamente. E as outras quatro concessões (Baixo Tejo, Baixo Alentejo, Litoral Oeste e Algarve Litoral) aguardam o visto prévio do TC, pelo que podem vir a ter o mesmo destino. Contudo, a Estradas de Portugal vai recorrer. Ao fazê-lo, as obras podem continuar, embora não possa haver pagamentos. E como o tribunal vai demorar imenso tempo a decidir, quando a decisão for conhecida, mesmo que dê razão ao Tribunal de Contas, estaremos confrontados com um facto consumado: os novos troços de auto-estrada já concluídos ou quase, pelo que a sua suspensão será inviável - e, no caso contrário, o Estado terá de ressarcir os construtores pelo que já fizeram. Então, como é óbvio, mandará o bom senso que se decida que se concluam as obras, sob pena de a penalização para os contribuintes ser ainda maior: pagarem e não terem auto-estrada. E assim, mais uma vez, pagaremos o que não deveríamos pagar, não haverá responsáveis e tudo será considerado natural.

Pois não é natural nem devemos conformar-nos com essa suposta naturalidade. A carga fiscal que pesa sobre todos nós é também resultado, em parte, deste tipo de situações. E estas parcerias público-privadas (PPP), sendo teoricamente uma boa ideia, têm vindo a constituir, na prática, um modelo muito desvantajoso para o Estado.

As PPP realizadas, em curso ou projectadas (concessões rodoviárias e ferroviárias, construção de hospitais, aeroportos, tribunais e prisões e expansão das redes de metro de Lisboa e Porto) representam já encargos para todos os contribuintes da ordem dos 55 mil milhões, com elevada concentração temporal na próxima década (cálculos de Eduardo Catroga).

Acresce que, da forma como as PPP têm funcionado, a maior parte dos benefícios fica do lado dos privados e todo ou quase todo o risco do lado dos contribuintes). E isso leva a que o sector empresarial privado e banca (nacional e estrangeira) apostem fortemente nestes projectos, de risco muito menor e ao abrigo da concorrência externa, em vez de o fazerem nos sectores dos bens e serviços transaccionáveis, ou seja, aqueles de que o país necessita como de pão para a boca para aumentar a sua competitividade externa.

Está, pois, tudo errado na forma como funcionam as PPP e nos sinais que dão para os agentes económicos. E é inadmissível que não só não sirvam para melhorar a competitividade do país como contribuam para onerar a factura fiscal da actual e da próxima geração de contribuintes.

PQP chega a líder europeu

É um dos maiores investimentos industriais de sempre em Portugal. E torna o país líder europeu na produção de papéis finos de impressão e escrita não revestidos.

Este feito é alcançado através da entrada em funcionamento da nova fábrica de papel do Grupo Portucel Soporcel, uma unidade que cria 350 novos postos de trabalho altamente qualificados e que representará 4% do total das exportações nacionais. É o tipo de investimento de que o país necessita desesperadamente, pois cria bens transaccionáveis de alto valor acrescentado e empregos de elevadas qualificações. Além do mais, a coragem de Pedro Queiroz Pereira investir €550 milhões nos tempos que correm é um enorme exemplo para todos os empresários.

Não se chegou aqui por acaso. O então ministro da Economia, Augusto Mateus, apostou na integração da fileira do papel, através da fusão da Soporcel e Portucel. Contratou um gestor privado, Jorge Armindo, para a concretizar. E depois o Estado privatizou a empresa. Os resultados são a prova de que quando se sabe o que se quer, se define o objectivo e se encontram as pessoas para o concretizar, a probabilidade de êxito aumenta exponencialmente. Um exemplo para meditar.

A Parque Escolar e o défice

Não há economista que se preze que não defenda que o investimento público prioritário deve incidir, por exemplo, na reparação do parque escolar. E assim o Governo criou a Parque Escolar, que vai modernizar mais de 300 escolas e que, para isso, conta com financiamentos do BEI, que podem atingir mil milhões. Na primeira fase, a modernização de 26 escolas custará 330 milhões, na segunda 75 escolas importarão em 840 milhões e na terceira cem escolas exigirão um investimento de 1200 milhões. Estarão envolvidos 50 a 80 subempreiteiros e serão criados 20 a 25 mil empregos directos e indirectos.

Tudo certo, portanto? Infelizmente, não. Todo este processo passa a latere do Orçamento do Estado, quer o investimento (que não é contabilizado como investimento público), quer as responsabilidades relativas ao endividamento. Mas deviam, porque na prática este projecto deve estar reflectivo no OE ou na dívida pública. Não o fazer significa desorçamentar. E maquilhar mais ainda as contas públicas.

O risco moral das empresas

A crise colocou sob os holofotes práticas empresariais que apareceram, em muitos casos, como injustas, imorais ou mesmo obscenas. Mas a história ensina-nos que, à onda de indignação popular que obrigou reguladores e governos a intervir, se seguirão tempos em que a lassidão de práticas voltará a ocorrer e os mesmos erros se repetirão.

É sobre estes temas que João Talone reflecte num pequeno opúsculo com o título "O risco moral das organizações". Nele não se fazem acusações; escalpeliza-se o problema. Sublinha-se que existem comportamentos que não são éticos nem ilegais, mas que podem ser "justificados" pela defesa de "interesses superiores", dando origem a "riscos morais" que podem ter graves consequências para as organizações. Frisa-se que ao abrigo da Responsabilidade Social e Desenvolvimento Sustentável "têm sido praticados actos de puro nepotismo que mais não são que um 'Risco Moral' potencialmente grave". Sublinha-se que os líderes têm de adoptar uma conduta rigorosa e exigente, para poderem imprimir uma cultura de rigor ético nas organizações. Que não é a mesma coisa o carácter de independência de um administrador com um administrador independente. E muito mais. Um livrinho indispensável.

13 anos em cena é obra!

Uma peça de teatro estar 13 anos em cena é obra! E se for teatro feito em Portugal por profissionais portugueses para o público português, esta longevidade é ainda mais extraordinária. A divertida peça chama-se "As Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos" e uma sessão especial no São Luiz, no dia 23, assinalará este aniversário, com o primeiro elenco (já teve cinco) que a representou: Simão Rubin, Manuel Mendes e João Carracedo. A estreia foi a 24 de Novembro de 1996 em Portimão. Quatro dias depois foi a vez de Lisboa. Desde aí, não mais parou. E continua em cena às terças e quartas no Teatro Estúdio Mário Viegas. Se ainda não viu, não perca. Se já viu, volte a ver. Vale a pena.

 

 

Você tem-me cavalgado,
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá-lo.

Alexandre O'Neill,
A História da Moral

Nicolau Santos

Texto publicado na edição do Expresso de 14 de Novembro de 2009

 

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PQP
cjours (seguir utilizador), 2 pontos , 11:17 | Segunda feira, 16 de novembro de 2009
Um grand bem haja ao PQP. Fazem falta mais tipos desses, pelos vistos.
Quanto às Estradas de Portugal eu só não perco o seguinte:
Porque é que Tribunais de Contas, fiscalizações, instâncias, auditorias, Tribunais, AR, etc, etc, se nada nas contas do Estado, se nada no funcionamento dos Ministérios e das empresas públicas ou participadas, bate certo?
Há buracos em todo o lado, buracos de diversa dimensão e, aparentemente, tudo continua sempre a correr com a maior das normalidades...
Quando é que as entidades que devem impedir e sancionar estas coisas decidem funcionar? Quando é que Tribunais de Contas, fiscalizações, instâncias, auditorias, Tribunais, AR... decidem começar a funcionar???
 
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Caro Nicolau,
B l u e S k y (seguir utilizador), 2 pontos , 16:49 | Segunda feira, 16 de novembro de 2009
Eu sinto-me Vermelho de VERGONHA.
Tenho vergonha de viver neste miserável país, onde tarda em chegar a justiça, onde tarda a chegar a democracia e onde nunca mais chega a liberdade de expressão. O 25 de Abril apenas sirviu os políticos. Todos eles, sem excepção, estão muito bem na vida. Vivem em luxuosas casas, altos ordenados e reformas milionárias, enquanto isso, o povo (sempre o povo) vais sobrevivendo como pode... E há muitos Portugueses que já não podem...
Repito, Portugueses.
 
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De buraco em buraco
CãodaRosa (seguir utilizador), 1 ponto , 11:58 | Segunda feira, 16 de novembro de 2009
Com todos o buracos que vamos tapando, ao vermelho da indignação sobrepõe-se o verde acastanhado da podridão que nos domina e governa, não só pelo mau cheiro, mas pela teia de interesses que foi tecendo e que nos embrulhou e deixou tolhidos, incapazes de reagir e banir, de uma vez por todas, os manhosos que nos governam e se governam à nossa custa. A empresa EP ao adjdudicar a construção de novas estradas, num plano rodoviário completamente louco e economicamente ruinoso, devia ver responsabilizdos os seus administradores, que em vez de obedecerem ao TC, ainda recorrem para manter as obras em curso. Assim, lá vamos de buraco em buraco, até ao buracão final que a todos nos vai engolir quando nos cobrarem a factura. Quanto aos bons exemplos citados, são tão poucos que não dão para tapar a pouca vergonha reinante. O poema de O' Neill é uma maravilha, mas a verdade é que quem nos calvalga não quer saber o que pensa a montada, estão-se maribando os calvalgadores deste país até ao dia em que a "besta" tome o freio nos dentes.
 
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É só fazer as contas
Limes (seguir utilizador), 1 ponto , 13:19 | Segunda feira, 16 de novembro de 2009
As contas á muitas dezenas de anos que estão feitas e todos nós as conhecemos, que obras publicas feitas com orçamento do estado ficam 50% mais baratas que feitas em Parecerias Publica Privadas vs PPP.
Ia
Veja-se o caso da Via do Infante que metade foi feita com o OGE e a outra metade em regime PPP. Agora é só fazer as contas como vai ficar o preço para cada metade.
Ib
Talvez que os empreiteiros portugueses tenham feito orçamentos a baixo do custo real para que os espanhóis não ficassem com as obras? Agora a factura aparece no seu tamanho real. E que afinal ainda se poupa dinheiro?
II
Sobre os centros comercias creio que é preciso modernizar o país as lojas da esquina não tem dinheiro para o fazer, mas as contas estão feitas, e em cada loja que se modernize recebe mais 30% de clientes, mas o comércio tradicional não tem capacidade financeira para se renovarem, é essa a razão do seu encerramento e não a concorrência que vende o mesmo que eles.
 
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GOSTEI....
Zaratustra70 (seguir utilizador), 1 ponto , 13:48 | Segunda feira, 16 de novembro de 2009
...mas reafirmo que V.Exa. é muitissimo melhor comentador politico que economico.
O que me pergunto, é o porquê desta sua mudanca radical, passar de "servo" do sistema para critico do sistema (?!?).
Mas bem haja pela mudanca.
Cumprimentos
 
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derrapagens
AntiFar (seguir utilizador), 1 ponto , 16:17 | Segunda feira, 16 de novembro de 2009
Sobre “Vermelhos de indignação”:
É sistemática a abordagem deste assunto das “derrapagens” sem que se faça o esforço de esclarecer, com uma precisão aceitável, as origens destas vultuosas ultrapassagens dos orçamentos contratados, bem assim como reflectir acerca da forma de as evitar eficazmente. Assim fica-se sempre com a ideia que não se faz mais que deitar o barro à parede.
 
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Meu caro Nicolau Santos
caprylm56 (seguir utilizador), 1 ponto , 20:18 | Segunda feira, 16 de novembro de 2009
Vermelho de indignação senti-me eu quando recebi a folha de pagamento de uma instituição do estado, de € 52,20 para o trabalho de um mês.
Pergunto sera que eu ando a contribuir para sanar estas derrapagens?
Cumprimentos.
 
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JN - Carlos Varela - 16 NOV
felicidade (seguir utilizador), 1 ponto , 6:01 | Terça feira, 17 de novembro de 2009
Recebiam dinheiro para facilitar licenciamento
23 arguidos entre funcionários da Direcção-Geral de Veterinária e empresários acusados de corrupção. Forma de pagamento desde dinheiro a estadias em hotéis e prendas de casamento
Três quadros da Direcção-Geral de Veterinária e um da Direcção-Geral dos Serviços Prisionais estão acusados de corrupção passiva, no âmbito de processos de licenciamento ilegítimo de instalações pecuárias e de avicultura.
O processo tem 23 arguidos - um deles já terá entretanto falecido. Para além dos funcionários públicos, foram também constituídos arguidos 19 empresários, gestores de empresas e consultores, acusados agora da prática de corrupção activa. O processo, no entanto, está longe de ser concluído, uma vez que se entrou agora na fase da abertura de instrução.
Um dos arguidos responde ainda pelo crime de detenção de arma proibida. .
A empresa trabalha na realização de projectos para as áreas da agro-pecuária e da avicultura e, segundo a acusação do Ministério Público, terá sido beneficiada nas encomendas de outras empresas, a troco de serem aprovados os proj
 
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PQP Fantasias
jvicentepinto (seguir utilizador), 1 ponto , 23:13 | Quarta feira, 18 de novembro de 2009
Comentários:



Não foi a nova máquina que fez a Portucel líder europeu.
Foram as 500 mil t de produção da nova máquina mais as 900 mil t que a empresa já produzia.



A exportação das 500 mil t de papel deve andar à volta de 1,4 % do total das exportações (não 4% ); na realidade, é menos; a exportação deste papel reduz a exportação de pasta em cerca de 450 mil t..



Neste caso, o investimento justifica-se mas, eu diria que é o tipo de investimento de que o país deve fugir desesperadamente.

Investir 500 000 000 € para criar 350 empregos só se pode justificar em situações muito particulares.

Investir 400 000 000 € numa unidade de processo, adquirida no estrangeiro, obriga a pensar duas vezes.



Coragem:

A decisão não foi tomada nos tempos que correm – privatização em 2004; encomenda da máquina em Outubro de 2007, depois de PQP ter obtido de Sócrates um apoio de 175 000 000 €



Exemplo para meditar::

A produção integrada começou muito antes de Augusto Mateus.

A Portucel que temos hoje resultou de um golpe de sorte – o êxito dos pequenos accionistas na oposição ao “projecto Nova Portucel”, defendido pelo Governo e por Jorge Armindo, em 2003.

Estes accionistas puderam. Para meditar.

Mais: vale a pena meditar no caso Portucel para percebermos a miséria da actuação governamental no processo da sua privatização

J. Vicente Pinto
  jotap@sapo.pt Texto integral em www.favelaocidental.com

 
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