Iniciam-se os festejos do centenário da implantação da República em época de reposição da moda dos vampiros, subitamente renascidos para a cultura pop, e efervescentes em quanto basta de fancaria textual e iconográfica. E não deixará isto de sugerir o estabelecimento de um sinuoso confronto. Pergunta-se o que empolgará a sério a juventude menos erudita, e mais numerosa, se a lembrança da introdução de uma era política que ela não conheceu, e que de certeza não ficará a saber em que calendário situar, se as lúgubres andanças dos mordedores de pescoço, trazidos agora ao nosso convívio com grande palpitação. Falha esta, não se duvide, aos senhores de retorcido bigode e colarinho revirado, que hastearam uma bandeira vermelha e verde, e que soltaram inflamados vivas ao futuro.
Igualmente paladinos de uma ideia de pátria, essa mesma que a evolução da conceptuologia histórica tornaria obsoleta, os soldados da Guarda Municipal que afogaram em sangue os revolucionários do 31 de Janeiro, e os assassinos que abateram a tiro o Rei e o Príncipe Real, terão executado admiravelmente o seu serviço. E de tal maneira mereceriam a gratidão de sectores opostos, se bem que representativos de idêntica percentagem das massas de Portugal, que os condecoraria o poder constituído, e lhes cobriria o povo a campa de flores. Lavrando todos eles as exéquias da Monarquia, e preparando a proclamação da República, terão sido o instrumento indispensável para nos acharmos aqui, e hoje, a verberar-lhes, ou a elogiar-lhes, o fatalismo do gesto que ousaram.
Toda a comemoração, assumidamente nacional, assentará por regra num equívoco de intenções, o de que se mostra fácil atrair um colectivo humano, definido pelas fronteiras, à celebração de uma efeméride de interesse para tutti quanti, ou pelo menos para a maioria. A verdade porém é que, não se apresentando monolítica população alguma, nem consensual qualquer programa, não haverá aplauso retumbante, capaz de coroar a festa.
Dirão os cínicos que não importa a ignorância da arraia-miúda, quando se trata de assinalar os supremos instantes da Grei. Mas ninguém conseguirá esconder que já passou tempo bastante para que, de miúda, se fizesse graúda a arraia, e para que as elites se arrumassem, conforme se prometia, nas arcas bafientas dos sucessivos regimes antigos, refractários aos ventos de cada revolução.