As dezenas de milhar de professores que vieram a Lisboa no sábado certamente esperavam, no mínimo, que a avaliação fosse suspensa; no máximo, que a ministra da Educação fosse demitida. Uma semana depois, o que vêem são os sindicatos - e a Fenprof em particular, que liderou todo o processo - a mendigarem um sinal de cedência nos procedimentos, nem que seja a dispensa de observação de aulas por parte dos avaliadores, ou a sugerirem cedências inexistentes para mascarar a inutilidade da sua estrondosa vitória. Quanto à ministra da Educação, vai repetindo o que sempre disse e desmontando a argumentação sindical que serviu para mobilizar os professores.
Esta situação tem o seu quê de caricato. Não significa que o Governo tem mais força do que a manifestação, nem que os sindicatos se tornaram mais concordantes com o essencial do que a ministra pretende impor. Significa apenas que os dirigentes sindicais têm, de facto, menos razão do que quiseram fazer crer - ou não precisariam agora de valorizar tanto as "cedências" de pormenor. Cumprida uma demonstração política de força que, à partida, já tinha pouco a ver com a avaliação, tentam sair rapidamente da situação incómoda em que se meteram.
Que os professores estão descontentes - não especificamente com a dita avaliação, como ficou patente em inúmeros depoimentos individuais colhidos pelas televisões - era uma evidência a que a manifestação só veio dar espectacularidade. Estão descontentes, claro, como muita gente noutros sectores, especialmente na Administração Pública, e inquietos com o que ouvem os sindicatos dizer acerca das avaliações. Mas se, depois de tanto repetir as suas explicações, a ministra também conseguir fazer-se ouvir nas escolas, é bem possível que a serenidade regresse em breve.
Falando de avaliações
Nuno Crato, matemático, professor universitário e colaborador deste jornal, recebeu um prestigiante prémio europeu pelo seu trabalho como divulgador de Ciência; uma equipa de investigadores do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC) demonstrou, com um novo modelo matemático - outra vez a Matemática, esse terror do ensino em Portugal -, que é possível erradicar a malária, doença que mata uma criança em África a cada 30 segundos, de acordo com a Organização Mundial de Saúde; o director do mesmo Instituto, o médico e também investigador António Coutinho, recebeu o Prémio Universidade de Lisboa, exactamente pelo seu contributo decisivo para a criação de uma escola de excelência e com prestígio internacional reconhecido na área das ciências biomédicas.
Tudo isto aconteceu na semana que hoje termina. E se nem todas as semanas são assim - nem mesmo nos países que estão na vanguarda da investigação científica... - a verdade é que notícias destas, sobre portugueses de mérito excepcional reconhecido, surgem com uma frequência cada vez maior.
Distraídos como andamos com as nossas pequenas coisas - a politiquinha rasca e estéril, a maledicência e o insulto gratuito, o derrotismo militante e o pavor de mudar seja o que for, mesmo o que todos sabemos que está mal -, quase nos esquecemos de felicitar os nossos concidadãos que não receiam avaliações. Bem pelo contrário, procuram ser avaliados em níveis de exigência máxima pelo seu trabalho esforçado, metódico e organizado. Com essa atitude e com métodos em geral opostos aos que vigoram no "statu quo" imposto por aquilo a que o conservadorismo reinante chama "a escola pública democrática", obtêm o reconhecimento internacional, honrando-nos a todos, como nação.
Estas boas notícias dizem respeito à divulgação e à investigação científica feita por portugueses em Portugal. Mas, infelizmente, são muitos os investigadores nacionais (cerca de cinco mil, segundo as estimativas) a trabalhar ou a estudar no estrangeiro. Porque não encontraram aqui as condições necessárias, ou simplesmente porque ousaram abraçar desafios mais exigentes do que aqueles que lhes eram oferecidos em Portugal. Desses, 43 por cento estão disponíveis para regressar ou tentados a fazê-lo. É o que diz um estudo, também divulgado esta semana, desenvolvido pela socióloga Ana Delicado, do Instituto de Ciências Sociais. Os países também se avaliam - e avaliam-se cada vez mais pela capacidade que têm ou não de atrair inteligência. Não faz sentido, pois, um país desistir sem luta daqueles que são alguns dos seus melhores cérebros. Trazer esses investigadores de volta, eis o que devia ser assumido como um desígnio nacional.
Baldes de plástico
Voltemos ao país habitual. Dos milhares de imagens televisivas que vemos numa semana há sempre algumas que ficam na memória. Dessas retiro duas, transmitidas no mesmo jornal da SIC. Primeira: três baldes de plástico de cores garridas colocados em posições estratégicas numa sala de audiências. Para que a sessão pudesse realizar-se houve necessidade de pôr os tais baldes em cima dos móveis para se recolher a água que caía das goteiras.
Segunga imagem: um cidadão de cadeira de rodas convocado para depor esbarra na escadaria exterior do tribunal de Abrantes. Comprovada a impossibilidade de aceder ao edifício, é ouvido na rua pelo juiz e pelos oficiais de justiça que se deslocam até ele para esse efeito.
São duas situações grotescas e talvez excepcionais. Mas o simples facto de ocorrerem diz muito sobre desatenção e incúria na administração do Estado. Os dois casos mostram como também por essa via se vai degradando a imagem da Justiça.
Fernando Madrinha