Neste texto o que John Keegan, o autor, realmente faz é uma poderosa reflexão sobre a natureza da guerra. Partindo de uma base relativamente inteligível para um público alargado - a teoria de Clausewitz -, o autor contesta, resumidamente, tudo o que já foi dito ou escrito sobre a guerra e propõe uma nova forma de a olhar: olhar a guerra não como um prolongamento do Estado e das suas relações, mas sim como um produto cultural.
Esta tese "nasce" da análise da prática de guerra noutras paragens e noutros tempos. É curiosa a referência a culturas que faziam uso da guerra por questões rituais ou por mera "rotina" a fim de se manterem algo independentes, e de formas completamente desconhecidas dos europeus até há algumas décadas.
Para além de tudo isto, que já não é pouco, Keegan faz uma reflexão sobre a "utilidade" da guerra. A tese essencial é que nos dias de hoje ninguém ganha guerras: nenhum dos propósitos iniciais da guerra - conquista de território, submissão de povos, etc. - é atingido. Keegan coloca a possibilidade de a guerra já não ser um método utilizável para que as nações atinjam os seus objectivos. É neste quadro que Keegan propõe o fim da guerra. Este é, provavelmente, o ponto fraco de todo o texto. O rigor analítico de toda uma obra fica um pedacinho manchado com um idealismo que contradiz o já dito. Depois de páginas e páginas a defender que a guerra muda de lugar para lugar, de tempo para tempo, de povo para povo, o autor não coloca sequer a possibilidade de o momento actual se tratar de mais uma alteração cultural, a adaptação a uma nova realidade, em que uma guerra feita nos moldes das guerras de há trezentos anos pode ser a última.
Como ilustração do ensaio - um verdadeiro ensaio filosófico na minha opinião - John Keegan evidencia a sua magistralidade enquanto historiador. É aqui que vemos "uma história da guerra", através da escolha de episódios históricos, de revoluções nas armas, enfim, através da escolha de "provas" da tese, exemplarmente descritas. Das guerras do paleolítico, passando pelos exércitos romanos até à actualidade, fazemos uma viagem de alguns milénios a fim de saber, essencialmente, como lidamos com a básica existência de semelhantes. Uma obra extraordinária, sem dúvida.