13/02/2012 atualizado às 1:11
Página Inicial » Opinião » Clara Ferreira Alves » Uma história abaixo de cão

Uma história abaixo de cão

Nada me enraivece mais do que a violência contra gente que não se pode defender. Contra animais.

Clara Ferreira Alves (www.expresso.pt)
0:01 Quinta feira, 3 de dezembro de 2009

"Primeiro levaram os comunistas, eu calei-me, porque não era comunista. Quando levaram os sociais-democratas, eu calei-me, porque não era social-democrata. Quando levaram os sindicalistas, eu não protestei, porque não era sindicalista. Quando levaram os judeus, eu não protestei, porque não era judeu. Quando me levaram, já não havia quem protestasse".

A frase, ou o poema, é o que resta de um conjunto de declarações avulsas e obscuras de Martin Niemöller (1892-1984), um pastor luterano alemão que foi internado pelos nazis em campos de concentração. Niemöller, que começou por ter sintomas de anti-semitismo e tentou 'dialogar' com Hitler, acabou um dos mais vigorosos críticos da indiferença do povo alemão perante a política de extermínio. Na vulgata, aquelas palavras circulam mais ou menos assim, um brevíssimo tratado da indiferença. E são erradamente atribuídas a Bertolt Brecht, que escreveu contra essa indiferença. A indiferença que prefere voltar as costas à acção. A indiferença da cegueira voluntária.

Quantas vezes ficaremos em silêncio perante a atrocidade? Não a atrocidade que vem descrita nos media e impele ao julgamento ou linchamento colectivo. A atrocidade do vizinho do lado. A atrocidade vulgar e quotidiana, com o sarro da crueldade repetida.

Uma pessoa conta-me uma história: tem uns vizinhos (imigrantes brasileiros) que têm um cão, há mais de um ano. O cão está sempre abandonado no quintal, sem comida e sem água, e alguns vizinhos têm pena do animal e atiram-lhe comida, ou um pouco de água que ele possa lamber, pela janela. Ouvem-no "chorar". Espiam-lhe os ossos saídos. Os brasileiros são agressivos e não admitem maltratar o cão. Por terem atirado comida ao cão, os donos do cão arrombam uma das caixas do correio. Deixam na caixa arrombada um hambúrguer cru. A pessoa não tem meios para colocar uma nova caixa de correio, o prédio é modesto.

Os donos do cão acabam por dizer-lhe que não era para ela, o hambúrguer. Enganaram-se. A caixa fica arrombada. Ninguém denuncia, não vale a pena, acham.

Um dia destas, alguns vizinhos ouvem o cão ganir. Alguns. Estendido no quintal com um pano por cima. Parece estar a morrer. Não se mexe, sem forças. Outra pessoa vai inquirir, a medo, o que se passa com o cão. Foi atropelado. E não o levam ao veterinário? Vão deixá-lo morrer assim? Não conseguiram telefonar, ninguém atendeu os telefones, etc. O cão morre lentamente. Horas depois, levam o cão, embrulhado no pano, e metem-no na bagageira do carro. Vivo. O cão desapareceu. Ninguém sabe se foi internado ou abandonado para morrer.

Quando me contam a história sinto que qualquer coisa deve ser feita. O quê? A pessoa pede-me que nada faça. Uma denúncia à Sociedade Protectora dos Animais? O Código Penal não prevê tutela destes casos. Decido falar com os donos do cão. A palavra dono é importante. A pessoa que me conta a história diz que não tenho nada que intervir, nem causar-lhe problemas com "os brasileiros" que ameaçam toda a gente. Eles são os donos. Talvez o cão regresse.

Lembro-me como detestava ouvir a "carroça dos cães", que vinha de noite apanhar os cães vadios. Matavam-nos com uma injecção no canil oficial. Os cães gemiam aterrorizados dentro da furgoneta sem janelas. Chamavam-lhe "carroça dos cães". Um dia, há muitos anos, vejo um cão ser apanhado. Com uma rede. O rafeiro debate-se, dão-lhe com um pau. Eu era uma criança, nada podia fazer. A sensação de impotência ficou-me. Os tempos mudaram. Hoje, os cães são recolhidos e alimentados no canil da Câmara Municipal. Podem ser adoptados.

Nada me enraivece mais do que a violência contra gente que não se pode defender. Contra animais. São casos em que, muitas vezes, as mulheres, as crianças e os cães têm um 'dono'. E têm medo. Num restaurante de luxo do Algarve vejo um grupo de homens ligados ao futebol sentados com mulheres. Uma delas não é muito nova e tem a cara esmurrada, olhos negros, lábio inchado. Tapa-a com as mãos. Os olhos lacrimejam de vergonha. O dono ri-se, diz-lhe que pode comer com metade da boca. O restaurante assiste, como eu.

Vejo um pai bater no filho perante a indiferença da mãe. Bofetadas e socos. A criança deve ter uns 4 anos e é arrastada pelos cabelos. Há testemunhas. Intervenho e o pai diz que me bate. Falo com a mãe e começa a chorar, pede-me que nada faça. Chamo a polícia. A polícia encolhe os ombros. As testemunhas fugiram, alegando afazeres. Se quiséssemos ir à esquadra... O dono do filho diz que me meti numa birra de criança que não era da minha conta. Diz que me processa. Na despedida, ameaça passar-me com o carro por cima. A criança treme nos braços dele. Sinto-me insuficiente. A claridade moral não nos cega, nós é que escolhemos fechar os olhos. Ainda não sei como termina a história do cão.

Texto publicado na edição do Expresso de 28 de Novembro de 2009 

 

Palavras-chave  opinião, , Violência, criança, animais
Faça login pelo Facebook e comente este artigo!
Página 1 de 2    « Anterior  |  Seguinte »
ordenar por:
mais votados ▼
Texto inspirado, expirado e a respirar, por todos!
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 11:52 | Quinta feira, 3 de dezembro de 2009

Os meus sinceros parabéns pela qualidade da prosa.

Dizem que somos o animal mais inteligente deste mundo mas, depois de casos destes, e de outros com que vamos contactando, fica-se com a impressão de que é muito parca a inteligência do Homo Sapiens Sapiens.

Dizer que este nosso mundo é um um "mundo cão" é demasiado nobre para a nossa condição de humanos e demasiado ofensivo para a condição canina.

Longe de ser um "mundo cão", o nosso mundo assemelha-se mais a um "mundo réptil".
 
 Regras da comunidade
Sex, Inglourious Basterds and CFA
Kong Fu Zi (seguir utilizador), 2 pontos (Bem Escrito), 12:45 | Domingo, 6 de dezembro de 2009
Quer o meu comentário?

A propósito, ainda este fds, passei no McDonald's Antas. Pois, cá vai uma descrição sumária dos factos nutricionais:

Menu Big Mac

Big Mac+French Fries+Coca-Cola

[Big Mac]

Item | % GDA* | Quantidade

Calorias: 25% 495 kcal

Proteínas: 36% 27 g

Gorduras: 37 % 25 g

Hidratos de Carbono: 15% 40 g

Sal: 46% 2.3 g


* Dose diária recomendada baseada numa dieta diária de 2000 kcal.

URL: www,mcdonaldsmenu.info

Ladies and gentlemen, people from Earth, martians and other ETs, here he is, 'The Voice':

Start spreadin' the news, I'm leavin' today
I want to be a part of it
New York, New York
These vagabond shoes, are longing to stray
Right through the very heart of it
New York, New York

I want to wake up, in a city that never sleeps
And find I'm king of the hill
Top of the heap

These little town blues, are melting away
I'll make a brand new start of it
In old New York
If I can make it there, I'll make it anywhere
It's up to you, New York... New York

New York... New York
I want to wake up, in a city that never sleeps
And find I'm A number one, top of the list
King of the hill, A number one...

These little town blues, are melting away
I'll make a brand new start of it
In old New York
If I can make it there, I'll make it anywhere
It's up to you, New York... New York New York!!!

P.S.: Sugestão de Video: "Wag the Dog" (1997), de Barry Levinson, com Robert De Niro e Dustin Hoffman.
 
 Regras da comunidade
Inpirador
pr0wn3r (seguir utilizador), 1 ponto , 0:41 | Quinta feira, 3 de dezembro de 2009
Estudo Ciências da Comunicação. Pretendo seguir a vertente de jornalismo e admito: gostava de a ter como mentora.

Porquê? Só sei identificar uma razão, que nem sequer é parte importante para o exercício de informar como conhecemos nos dias de hoje: os seus textos são viciantes. Quanto mais leio, mais quero ler.
 
 Regras da comunidade
    Re: Inpirador    Ver comentário
stiffo (seguir utilizador), 1 ponto , 19:57 | Quinta feira, 3 de dezembro de 2009
Someone once told me to mind my own busines
Pedro Alves Ferreira (seguir utilizador), 1 ponto , 7:21 | Quinta feira, 3 de dezembro de 2009
A violencia de genero e algo que me impressiona sobremaneira. A atitude masculina e repugnante, manifestamente asquerosa, repleta de insegurancas e de birras de crianca mal resolvidas.

Ja estive no epicentro familiar deste fenomeno - ajudei a resolver, protegendo quem devia proteger, tendo sido agredido por o fazer. Ajudei, porque a decisao de acabar com os maus-tratos veio dela, o que foi essencial para por fim a crueldade e a cobardia. Saimos do inferno com mazelas psicologicas que ainda hoje me acompanham e que me levaram a tentar intervir em varias situacoes identicas em Portugal e, mais recentemente, em Espanha. Em todas me ia dando mal e, na que assisti bem no centro de Barcelona, acabei por perceber o quanto as lembrancas da minha infancia e adolescencia me perseguem, ja que vi o reflexo do agressor de entao na minha frente. Espero que o que aconteceu nesse momento tenha ajudado a moca brasileira a perceber que so ela tem o poder de decidir acabar com aquilo. Como o fez a minha mae.
 
 Regras da comunidade
Alimentados em canil?
soniras (seguir utilizador), 1 ponto , 12:49 | Quinta feira, 3 de dezembro de 2009
Muito bonito o seu texto, pertinente como todos mas...não é bem assim.Ainda se conhecem, hoje em dia, relatos de canis onde os animais passam os 8 dias no "corredor da morte" sem alimento, onde os que "levam com o pau" na altura da recolha não têm direito a assistência veterinária porque vão morrer... E os que morrem, muitos ainda em câmaras de gás são "encaixotados" de tal forma que ou padecem por esmagamento ou ficam vivos tal era falta de ar no caixote.
Muitas muitas mais histórias desta natureza e pior povoam o mundo dos indefesos.

A sua "pluma" remeteu-me a esta outra:
"A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza, com toda a liberdade, em relação àqueles que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, num nível tão profundo que escapa ao nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais. é aí que se produz o maior desvio do homem, derrota fundamental da qual decorrem todas as outras." - Milan Kundera
Obrigada!
 
 Regras da comunidade
Muito forte !!
mpreto (seguir utilizador), 1 ponto , 12:54 | Quinta feira, 3 de dezembro de 2009
Uma peça fabulosa esta que acabei de ler!

Um detalhe que seguramente não passou ao lado dos amantes e defensores dos animais, é que este mesmo jornal (versão papel) tem assumido várias atitudes anti-animais, entre artigos de opinião do já senil Sousa Tavares e quando criticou o partido BE por ter propostas a favor dos animais do seu programa político e que, felizmente, este artigo de opinião vem agora contradizer (existem muitos mais exemplos anti-animais).

Efectivamente, como podem as pessoas e os animais serem defendidos se a própria legislação e as forças de segurança não estão preparados para defender quem quer defender? A nossa legislação, os nossos políticos e muitos dos nossos autarcas estão completamente obsoletos.

Por outr lado, só este ano a Espanha condecorou 2 heróis que foram baleados ou agredidos violentamente por defenderem mulheres (um era Marroquino).
 
 Regras da comunidade
EM DEFESA DOS MAIS FRACOS
naif (seguir utilizador), 1 ponto , 14:24 | Quinta feira, 3 de dezembro de 2009
Recordo perfeitamente a carroça e o seu barulho caracteristico.
Recordo perfeitamente a brutalidade de "pessoas" com criânças, mulheres, e animais.
A sua prosa fez-me regressar á minha meninice.
Mas lamento que passados todos estes anos, tudo se mantenha na mesma.
Obrigado Clara pela sua prosa que me fez recordar que o Homem é um predador por natureza, mas que não sabe escolher os seus inimigos.
 
 Regras da comunidade
Descrição da bondade com pitada de veneno
CM84 (seguir utilizador), 1 ponto , 16:08 | Quinta feira, 3 de dezembro de 2009
Gostei. Quem pode não gostar de um tema extraordinariamente bem escrito. Mas...

No conteúdo dos seus textos encontro sempre um mas...

  Haveria necessidade da mensagem subliminar "os imigrantes brasileiros são maus para os animais e também para as pessoas, é melhor evitar conflitos com eles"

O primeiro tema do artigo é uma ode contra a descriminação, no segundo introduz a ponta do alfinete.

Penso que o artigo seria perfeito, sem incluir a nacionalidade dos intervenientes, principalmente porque não se trata de um grupo ou etnia com cultura ou hábitos diferentes. Sinalizar tal condição poderia ajudar a compreender o comportamento. O que não era o caso.

Trata-se de um grupo de pessoas com "mau fundo", que por acaso são brasileiros.

cumprimentos

PS - Na parte relativa à violência entre humanos, constato a ausência desse factor importantíssimo para a compreensão do problema, que é a indicação das respectivas nacionalidades.

 
 
 Regras da comunidade
Partido Pelos Animais
jorgempribeiro (seguir utilizador), 1 ponto , 18:12 | Quinta feira, 3 de dezembro de 2009
Pelo bem do planeta, dos homens e dos animais.
www.partidopelosanimais.com
 
 Regras da comunidade
ah! ha anos que andava a tua procura
stiffo (seguir utilizador), 1 ponto , 19:50 | Quinta feira, 3 de dezembro de 2009
e encontrei te agora. havia um teatro na praca de espanha(?). num largo grande em frente a fundacao Gulbenkian. seria a Barraca? tinha uma atriz muito bonita que me dava uns apertos ca dentro e encenavampecas do Bertolt Brecht. quando o meu pai me levava a lisboa iamos sempre ver uma dessas pecas. e foi relacionado com este escritor que eu li essa frase. as vezes quero usa-la mas nao me lembro. agora ja sei. obrigado
 
 Regras da comunidade
Mahatma Ghandi...
M.Farid (seguir utilizador), 1 ponto , 20:22 | Quinta feira, 3 de dezembro de 2009
...dizia que"a virtude de um povo pode medir-se pela forma como trata os seus animais".

E tratá-los bem nunca pode ser confundido em usá-los para nosso prazer,ignorando que cada animal ao viver junto dos humanos fica restringido nos comportamentos naturais da espécie a que pertence,constituindo essa restrição uma violência.
A melhor e mais feliz ave é aquela que podemos ver a voar livremente e não a que está cantando numa gaiola para nosso prazer.
 
 Regras da comunidade
Animais sem Direitos ou Protecção
Sofia Gaspar (seguir utilizador), 1 ponto , 4:48 | Sexta feira, 4 de dezembro de 2009
Apesar da legislação, de protecção e direitos dos Animais, ser muito pobre, pode e deve-se denunciar uma situação destas.

Os Animais não são considerados -pela legislação- seres vivos com sentimentos. Segundo a mesma, eles são um bem, como um carro ou uma casa...

No canil Municipal de Lisboa, estão inseridos no "Departamento de Higiene Urbana e Resíduos Sólidos. Isto diz tudo.

Enquanto a legislação não for alterada, os animais continuarão a viver e morrer, como criminosos.

Acho importante que as pessoas tenham noção da realidade e, por isso, deixo aqui uns links:

http://blabla.nireblog.co...

http://cantinhoplosanimai...

http://cantinhoplosanimai...

http://cantinhoplosanimai...

http://cantinhoplosanimai...

"Tome partido. Neutralidade ajuda o opressor, nunca a vítima. Silêncio encoraja o torturador, nunca o torturado."
 
 Regras da comunidade
todos devem ter direito a uma vida sem maltratos
cristinacontra (seguir utilizador), 1 ponto , 7:56 | Sexta feira, 4 de dezembro de 2009
Pensei que o sofrimento dos animais era indiferente à Clara Ferreira Alves por já a ter ouvido defender a tourada com o estafado argumento da tradição. Já vi então que tem compaixão pelos cães, só lhe falta agora não descriminar espécies e defender todos por igual. As tradições que implicam vítimas não podem continuar. Temos que denunciar, denunciar, denunciar.
Obrigada por escrever um artigo dando voz a quem não a tem.
 
 Regras da comunidade
sobre o caso do cachorro especificamente
Muzhik (seguir utilizador), 1 ponto , 21:11 | Sábado, 5 de dezembro de 2009
Gente complicada tem em todo lugar e de qualquer nacionalidade. Há pouco comentava sobre o Champaulimaud e sua fábrica de cimento em Vespasiano q por décadas poluiu os pulmões de toda uma cidade, passando por cima de leis ambientais, governos, imprensa etc Tb com ele não havia muito o q ser feito...
 
 Regras da comunidade
ainda não percebi
dexterina (seguir utilizador), 1 ponto , 17:38 | Domingo, 6 de dezembro de 2009
o que faz a senhora nesta cloaca chamada Portugal. Nem Inês Pedrosa, nem Miguel Sousa Tavares, nem Ricardo Araújo Pereira, nem Pinto Balsemão, nem Daniel Oliveira. Vão-se embora e deixem a jangada afundar-se de vez. O país não vos merece.
 
 Regras da comunidade
Página 1 de 2    « Anterior  |  Seguinte »
PUB
 
Email
O Expresso no
Arquivo
PUB




Miguel Relvas dos Santos
0:00 Sábado, 11 de fevereiro de 2012,
O fim do mundo num gemido
0:00 Sábado, 4 de fevereiro de 2012, 3
Não somos assim tão burros
0:00 Sábado, 28 de janeiro de 2012,
À Dra. Cristas, cristãmente
0:00 Sábado, 21 de janeiro de 2012, 2
O assalto à EDP
0:00 Sábado, 14 de janeiro de 2012, 1
Leia aqui toda a informação das últimas 24 horas | últimos 2 dias |  anterior »
MBA
Grupo ImpresaACAP