A braços com o projecto de um novo romance, A Batalha do Caia, que em seu entender abalaria os alicerces do imaginário nacional, decidiu Eça recorrer a Ramalho Ortigão numa carta espantosa de eventual safadeza. Avançava ele aí de facto com uma extraordinária chantagem, baseada na convicção de que "a ideia publicada ou não é um capital". E prosseguia, "Esse capital tenho direito a ele: que me venha do Chardron (ou do público, melhor) pela publicação, ou que me venha do governo, pela proibição - é-me indiferente: e você está por esta encarregado de fazer produzir o capital."
As circunstâncias do imbróglio serão bastante conhecidas. Menos líquida se mostrará porém, não a realidade, mas o lugar, da missiva em que Ramalho responde à tentativa de manipulação por parte do seu amigo, subtraindo-se à estratégia que pretende instrumentalizá-lo. Começa por declarar, "Quer você um lucro, ao fim de contas, provenha ele da edição dos seus escritos, ou da ameaça de os trazer a lume." E continua com frontalidade, "Admita que me impõe uma manobra de pressão inadmissível, reveladora de evidente falta de senso moral e de intolerável pieguice de carácter." Conclui com isto, "Lavo por consequência daí as minhas mãos, caríssimo José Maria, desejando-lhe quand même o maior dos sucessos."
Encontrada pelo signatário das presentes linhas, e por ele transcrita no seu livro As Batalhas do Caia, semelhante epístola veria a sua autenticidade contestada, ou pelo menos posta em dúvida, pelo referido e tão estimável A. Campos Matos. Garantida a sua existência sob palavra de honra, mantém-se todavia o utilizador dela inteiramente às escuras quanto ao sítio onde a terá achado. A verdade é que não a inventaria ele por razão alguma do Mundo, e sobretudo pela sua absoluta inépcia para a fantasiar.
Abalançar-se-á um provável leitor desta crónica, queirosiano ou ramalhiano, ou saudavelmente comum, a esclarecer o mistério? Prestar-nos-ia o favor sem preço de nos limpar do vício que não nos assenta, nem ambicionamos, da mais refinada das aldrabices.