Num debate a cinco na RTP, no início da semana, o que se discutiu sobre a Europa foi... praticamente nada. Espera-se que ontem, num frente-a-frente entre os principais candidatos (realizado na SIC depois do fecho desta edição), Vital Moreira e Paulo Rangel tenham deixado mais elucidados quem os seguiu. Infelizmente, porém, o grau de ruído próprio das campanhas parece impedir uma discussão séria e ponderada sobre o que está em causa nas eleições europeias de 7 de Junho.
E o que está em causa é muito. Com o avolumar da actual crise, a Europa ou se afirma como um bloco coeso, do ponto de vista político, social, económico e até militar, ou corre o risco de se afundar na sua própria ineficácia.
Se quisermos reduzir a duas palavras o que vamos votar, diremos que a alternativa é: mais ou menos Europa.
Será, pois, de toda a utilidade que os candidatos discutam algumas questões centrais, tais como as que se seguem:
- O Tratado de Lisboa. Qual a posição de cada um? Até onde devem ir os esforços para a sua aprovação?
- O papel da UE e dos Estados nacionais na crise. A Europa deve reforçar ainda mais os investimentos públicos, ou refreá-los?
- O desemprego. De que modo se cria emprego? Através de que mecanismos ou iniciativas? Haverá vantagem nas grandes obras ou isso é uma receita passada?
- Imigração. Abrimos ou fechamos portas? E na imigração interna da UE, é aceitável fechar fábricas em países parceiros ou privilegiar os trabalhadores nacionais?
- Sistema financeiro. Como vai ser regulado? Deverá haver um regulador único? Os bancos europeus não deveriam seguir as mesmas regras em todos os Estados-membros, tanto mais que alguns (Santander, por exemplo) já não podem ser considerados apenas de uma nação específica?
- Política externa. A UE deve ter uma única voz na política externa, ou cada nação deve manter a sua idiossincrasia nas relações externas?
- Defesa. Deve a União depender essencialmente dos exércitos americano, inglês ou francês ou ter uma força europeia digna desse nome?
- Democracia. A Europa deve continuar a ser liderada pelos Governos eleitos de cada Estado, ou deve passar a ser governada através do Parlamento Europeu, único órgão eleito directamente pelos cidadãos? Dito de outro modo, a Comissão deve depender única e exclusivamente do Parlamento ou, como até agora, ser um conjunto de comissários nomeados pelos Governos?
- Presidência. Dependendo da questão anterior, quem é a favor da continuação de Durão Barroso e quem não é, baseado não só na nacionalidade, mas na avaliação do seu trabalho dos últimos cinco anos.
Haverá, seguramente, outros pontos. Mas a resposta clara e sem evasivas a estes por parte dos candidatos já contribuiria grandemente para o debate europeu que tarda sempre em ser feito.