Estava George a apanhar os descuidos do seu cão nas ruas de Dallas quando, vendo-se naquela condição, descobriu que alguma coisa tinha mudado na sua vida. E contou isto aos 15 mil que pagaram para o ouvir numa conferência de "motivação". Mas era ali, ao ver-se naquele palco a entreter uma audiência que pagou cinco dólares para o ouvir, com um pano por trás onde se podia ler "motiva-te!", que Bush deveria ter percebido que alguma coisa correu mal. Revelador da sua desgraça não é a perda de estatuto que o obriga a limpar os trabalhos de 'Barney'. É o que ficou depois do estatuto se perder.
Um ex-presidente tem de fazer pela vida. Homens como Blair ou Aznar dedicam-se ao roteiro das conferências de luxo. Carter, Clinton e Gore usam o seu prestígio e experiência para ajudar a resolver conflitos ou baterem-se por causas que esqueceram quando estavam no poder. Mas George não tem prestígio para oferecer. Até os seus mais incondicionais apoiantes por esse mundo fora se querem esquecer do seu nome. Também não tem experiência, já que deixou todas as decisões importantes para os seus colaboradores, que agora tratam dos negócios que prepararam na Casa Branca. Nunca dominou o inglês. Nunca soube muito de política. Hoje dedica-se a falar com aqueles que procuram motivação para serem "alguém na vida".
A assistência que se juntou em Fort Worth, no Texas, gostou do que ouviu. Da música dos Beach Boys e da frase do televangelista Robert Schuller: "apaguem a palavra impossível do vosso vocabulário". De facto, podiam olhar para aquela criança grande que já foi o mais poderoso dos poderosos para imaginarem que não há impossíveis. Até um idiota, se for genuíno, pode chegar ao topo do mundo. Apesar de ter gasto quase toda a sua intervenção a falar do tapete que escolheu para a sala oval, o público adorou. "Ele é apenas um tipo normal", disse um vendedor de 50 anos. E um colega de profissão acrescentou: "não é melhor do que eu".
E este é o paradoxo das democracias. Na realidade, a maioria das pessoas não respeita a inteligência e o conhecimento. Toma-a por arrogância. A ideia democrática de que tudo é possível e que basta muito esforço para chegar ao céu acaba por promover a mediania. Só que a liderança não é para gente normal. É para gente extraordinária. É para os melhores entre nós. O preço de dar o poder a um 'tipo normal' está à vista. Em Bagdad e em Wall Street. Porque ele não era melhor do que nós.
Mau timing
José Rodrigues dos Santos pode não saber muito de literatura e do jornalismo só conhecer em profundidade os quartos dos hotéis de cidades em guerra. Mas sabe do negócio. Melhor do que a Bíblia para a excitação mediática, só mesmo o Corão. E esta devia ser a primeira razão de queixa dos muçulmanos: porque têm os cristãos direito a Saramago e para eles sobra um escritor de aeroporto a fazer-se de Salman Rushdie? E se escrevi algumas coisas sobre o que disse Saramago, nem vou perder grande tempo com o chorrilho de disparates que Rodrigues dos Santos disse a propósito do seu novo livro. Fica apenas a ironia do erro na escolha do momento para o lançamento. Esperava o locutor que lhe caíssem na caixa de correio ameaças que o catapultassem para fama internacional. Mas um Nobel estragou-lhe a festa e a 'fúria divina' veio de outros fiéis. Fica para a próxima, dos Santos.
Daniel Oliveira
Texto publicado na edição do Expresso de 31 de Outubro de 2009