Em outros dados de análise que não o número de alunos e as notas que obtiveram nos exames nacionais, o ranking das escolas secundárias deste ano volta a comprovar o domínio dos estabelecimentos privados e a exclusão dos concelhos do interior do topo da lista.
Significa isto que as escolas particulares e do litoral, que têm os alunos com notas mais altas, são melhores do que as outras? Não necessariamente. Ao fim de oito anos de publicação destas listas pelos órgãos de comunicação social, as classificações nos exames por estabelecimento de ensino continuam a ser o único dado disponibilizado pelas várias equipas ministeriais. Isto apesar de a tutela ter em sua posse informações que permitiriam conhecer melhor a realidade de cada instituição.
É o caso da percentagem de alunos beneficiários da acção social escolar, ou seja mais carenciados, que ajudaria a perceber como a população da Secundária do Restelo, em Lisboa, ou da Infanta D. Maria, em Coimbra, é radicalmente diferente da dos estabelecimentos que ocupam o extremo oposto da tabela. Só este ano o Ministério da Educação (ME) divulgou dados sobre este indicador, mas fê-lo apenas em relação a uma dúzia de estabelecimentos, num universo superior a mil escolas.
Ainda assim, os números permitem constatar uma relação quase perfeita entre os estabelecimentos públicos que figuram nos lugares cimeiros do ranking do secundário e os que apresentam menor percentagem de estudantes carenciados. O que dificilmente será apenas uma coincidência. A nível nacional, a média de beneficiários da acção social ronda os 26%. Já em nove das dez primeiras escolas públicas do ranking não vai além de 10%.
Isto não significa que haja uma selecção social por parte destes estabelecimentos de ensino - algo que a lei proíbe - mas não deixa dúvidas quanto ao meio económico e social privilegiado em que estão inseridas. Tal como a grande maioria da população dos colégios privados.
Feitas as ressalvas, diga-se que o domínio das escolas privadas no topo da lista de classificações é uma realidade inevitável. Os números falam por si. Apesar de, no conjunto do sistema de ensino, representarem uma pequeníssima parcela - aí realizaram-se apenas 11,5% do total dos exames nacionais -, os estabelecimentos particulares conquistam por completo os lugares cimeiros.
Tal como aconteceu em 2008, nenhuma pública consegue figurar no top 10 e apenas três conseguem um lugar no top 20. E a proporção tem vindo a piorar nos últimos anos. Curiosamente, é no Porto que se encontram tanto a escola privada como a estatal com melhores resultados: o Colégio Luso-Francês (372 provas realizadas com uma média de 14,5 valores) e a Secundária Aurélia de Sousa (613 exames e 13,2 de média).
Nesta análise, e como não é indiferente o número de provas realizadas em cada escola, merece igualmente destaque a prestação da Secundária Garcia de Orta, também no Porto. Foi uma das que levaram mais alunos a exame em todo o país (mais de 1000 testes), conseguindo situar-se no 18º lugar.
Outra das conclusões que os rankings permitem retirar ano após ano são as dificuldades sentidas em muitos estabelecimentos de ensino do interior do país. Este ano, é preciso percorrer a lista até ao 60º lugar para encontrar uma escola localizada numa cidade fora do litoral: a Secundária Fernão de Magalhães, em Chaves.
Se se começar a ler a tabela a partir do fim, então a situação é precisamente a inversa, com o concelho de Bragança ou as regiões autónomas da Madeira e dos Açores a aparecer vezes de mais.
Com as médias nos exames com mais alunos inscritos a caírem face ao ano anterior, também não é de estranhar que tenha havido mais escolas com uma prestação negativa: uma em cada três não conseguiu chegar aos 10 valores. Em 2008, o mesmo tinha acontecido com apenas 23%.
Ranking SIC/EXPRESSO do Ensino Secundário 2009
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Constatámos
+
Esforço das escolas Vários estabelecimentos repetentes nos últimos lugares não desistem e investem em planos de melhoria para contrariar as dificuldades do meio
-
Resultados pioraram A percentagem de escolas com média inferior a 10 valores passou de 23% para 35% em relação a 2008
85
Resultados por cento das 595 secundárias onde se realizaram exames tiveram menos de 10 valores de média na prova de Física e Química, que registou a nota mais baixa entre as principais disciplinas
Raparigas são melhores
Como habitualmente, as raparigas saíram-se melhor nos exames, alcançando uma média de 10,78 valores, contra 10,42 dos rapazes
Público vs privado
A média das escolas particulares ficou 1 valor acima da registada nos estabelecimentos do Estado: 11,6 para 10,5
Sobe e desce
A secundária Fernão Mendes Pinto (Almada) foi a que mais progrediu (296 lugares). Já a de Sobral de Monte Agraço caiu 321 posições. Em ambas a média oscilou 2 valores
"O Ministério não teve a iniciativa de nos ajudar a melhorar. E nós precisamos de ajuda"
José Bruno, Director da Escola Prof. Mendes Remédios (Nisa), a última do ranking
"Muitas vezes, as notas são o menos importante. A escola é essencial para eles terem ao menos uma boa refeição por dia"
Cristina Perpétuo, Vice-directora da Esc. de Figueira Castelo Rodrigo
"O Ministério não teve a iniciativa de nos ajudar a melhorar. E nós precisamos de ajuda"
José Bruno, Director da Escola Prof. Mendes Remédios (Nisa), a última do ranking
"Muitas vezes, as notas são o menos importante. A escola é essencial para eles terem ao menos uma boa refeição por dia"
Cristina Perpétuo, Vice-directora da Esc. de Figueira Castelo Rodrigo
540
foi o número total de classificações máximas (20 valores em pauta) obtidas pelos alunos no total das 229 mil provas realizadas
5
valores foi a diferença máxima registada entre a média de exame e de escola. Aconteceu na Secundária Paredes de Coura, onde os professores atribuíram aos alunos 14 valores no final do ano. Mas estes não foram além do 9 nos exames nacionais
Texto publicado na edição do Expresso de 17 de Outubro de 2009