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Um salto no tempo

Uma lista a precisar de reforma para que o Belcanto mantenha o seu (en)canto.

José Quitério (www.expresso.pt)
12:50 Sexta feira, 5 de fevereiro de 2010

Um salto no tempo
 

Belcanto



Largo de São Carlos, 10
Lisboa
Tel. 213 420 607
(fecha aos sábados e domingos)

Fica na parte mais esforçadamente elegante, por assim dizer, da cidade, paredes-meias com o Chiado, em frente do Teatro de São Carlos (de onde lhe adveio o nome), a poucos metros da casa em cujo 4º andar nasceu Fernando Pessoa. Refiro-me ao restaurante Belcanto. Tudo começou em 1958, quando três cidadãos galegos resolveram abrir um salão de chá, com chás dançantes à tarde, que à noite se transformava em boîte ou dancing. A fórmula não teve sucesso, que só aconteceu com a reconversão em restaurante, passados uns meses, pela mão do sr. Saraiva - Gelásio Saraiva Ruas de seu nome completo, ex-braço direito de Ângelo Pereira (outro histórico da restauração lisboeta), igualmente fundador do Lorde e, mais de 20 anos depois, do Saraiva's. Patrão único de 1961 a 1973, já antes Saraiva acabara com a música e a dança e instituíra o modus vivendi: almoços, com frequência da fina-flor dos negócios e das profissões liberais; a partir das 17 horas, entrada em cena das "margaridas da noite", à disposição de industriais do Norte, latifundiários do Alentejo e similares. Dualidade que durou até ao 25 de Abril de 1974, à semelhança, aliás, do que se passava no Lorde, no Ibéria e no Rex.

Embora o revestimento de assentos e cadeirões já não seja de couro, as salas (mais resguardada e reservada a segunda, que dá para a Rua Anchieta) mantém o imenso conforto aconchegante conferido sobretudo pelos painéis de madeira que preenchem paredes, os belos candeeiros, a pesada alcatifa.

A lista fixa regista 8 Acepipes, 8 Sopas, 8 Ovos, 6 Mariscos, 8 Peixes e 14 Carnes. Inalterada desde há 40 anos, está obviamente datada e com itens absolutamente dispensáveis. Caso dos acepipes, onde aparecem sardinhas, atum e anchova de conserva, mais próprios de tasca sem recursos. Para quê tantas sopas? E tantos pratos de ovos (incluindo os estrelados com bacon do pequeno-almoço inglês)? De mariscos, quatro são amêijoas e dois inominados em caril e salada. Peixes nobres, sim senhor, tratados das maneiras mais elementares. Das carnes, metade são bifes e aparentados. Há os Pratos do Dia, em que dois ou três fogem do catálogo, que não da estandardização.

O "escabeche" (€3), carapaus no dito, passou no exame. Agradáveis as "tostas de gambas surprise" (€10), ovos mexidos com fragmentos dos crustáceos servidos em pão de forma torrado. Quase uma omeleta circular a "tortilha à portuguesa" (€10), com cebola e pouca batata, sem conduto, passável. Em relação aos "ovos mexidos à professor" (€10) - aqui (ou no Lorde?) criados pelo famoso médico cardiologista prof. Cid dos Santos (1907-1975) e que não são mais que bocadinhos de chouriço e de pão salteados em manteiga a que se juntam ovos batidos -, já os comi melhores, por exemplo, no Saraiva's. As "amêijoas à Bulhão Pato" (€14) de receita correcta, estirpe razoável, mas pequenotas e como que partidas por dentro.

Os "lombos de pescada à moleira" (€16) foram o "à meunière" do costume para um peixe sem grande viço. O "chambão de vitela cozido com arroz de grelos" (€14) demonstrou que a cozedura não é o procedimento ideal para esta peça de carne e mostrou o arroz algo aguado. "Entrecôte maître d'hotel" (€17) definido pela manteiga com salsa e limão, carne razoável, batatas fritas e grelos levemente salteados. "Bife especial à Belcanto" (€18), do lombo, altinho, com molho de natas, batatas fritas igualmente boas, nada de sublinhadamente especial. "Rim aux champignons" (€17) a deixar-se comer com agrado, na companhia dum arroz branco bom no seu estilo austero.

Das três possibilidades queijeiras anunciadas, convocou-se o serra curado, aceitável. Do quinteto de doces exibiram-se a contento "bolo de coco", "toucinho-do-céu" e "trouxa-de-ovos". A carta de vinhos sem datas, desactualizada, peca sobremaneira pelos brancos e tintos misturados. Também não me dei ao trabalho da destrinça, pelo que indico os totais de 81 maduros, 7 verdes, 2 espumantes e 2 champanhes. O serviço decorre sem sobressaltos e vale a pena chegar à fala com o sr. João (na casa desde 1964) e com o sr. Aníbal (desde 1969), depositários de história e de estórias.

Em tempo de mudanças - o restaurante é desde há meses propriedade da conhecida empresária Rosalina Machado -, aqui vai a sugestão. Que o Belcanto mantenha o seu encanto espacial que tanto agrada aos clientes habituais e aos ocasionais. Quanto ao canto gastronómico, só lhe ficava bem iniciar paulatinamente a via da afinação e do arejamento.

Texto publicado na edição do Expresso de 30 de Janeiro de 2010
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