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Um pacto laboral

Henrique Raposo (www. expresso.pt)
0:00 Sexta feira, 29 de janeiro de 2010

O país 'económico' só discute o duplo 'D': dívida e défice. Esta discussão é necessária, mas não resolve o nosso problema de fundo: por que razão não crescemos a um ritmo aceitável? E a resposta a esta pergunta tem uma simplicidade marcial, caro leitor: o investimento privado não gosta de nós. Portanto, a pergunta que deveria preocupar os nossos génios 'económicos' é a seguinte: por que razão o investidor privado foge de Portugal como Maomé fugia do toucinho? Bom, na minha cabeça de não-génio 'económico', o investidor privado evita Portugal, porque a nossa economia é patrulhada por dois exterminadores de investimento, a lentidão da justiça e o código laboral.

Em Portugal, não se consegue reaver uma dívida por meios legais. Como é óbvio, ninguém investe numa selva onde uma pessoa de bem é violentada por caloteiros. Para quê investir num deserto pré-legal (Portugal) quando existem belos jardins legais (Rep. Checa)? Muitas empresas portuguesas fecham as portas, porque os juízes são incapazes de funcionar a um ritmo decente. É isso mesmo, caro leitor: muitas pessoas vão parar ao desemprego por causa dos juízes (espero que isto atormente, sem piedade, o sono dos senhores doutores juízes). Como é natural, ninguém investe num país onde os tribunais desrespeitam a vida das empresas. De igual forma, ninguém investe num sítio que ilegalizou o despedimento individual. Em Portugal, despedir um trabalhador é um acto que comporta custos proibitivos. Isto sucede porque nós temos o código laboral mais rígido de toda a OCDE. No decisivo campeonato da flexibilidade laboral, Portugal joga na terceira divisão mundial. E, vá-se lá saber porquê, os investidores preferem apostar em países que não encaram o despedimento individual como um crime lesa-25 de Abril.

Caro leitor, enquanto não conseguirmos destruir estes exterminadores, a nossa economia continuará em coma. Ora, como primeiro passo para a recuperação, a minha cabeça de não-génio 'económico' sugere o seguinte pacto laboral: os empresários devem aumentar os salários mais baixos dos seus empregados, mas, em troca, Portugal tem de queimar o actual código laboral. "E o que fazer com a justiça?", perguntará o leitor atento. Os problemas da justiça, caríssimo leitor, não serão resolvidos com pactos, mas sim com a força bruta de uma revolução institucional que está por vir.

O desvio de Weber


Em Copenhaga, o moralismo europeu esbarrou na nova ordem mundial. Os EUA negociaram com a China e Índia. Com orelhas de burro enfiadas na cabeça, a Europa ficou num canto a fazer birra. A Cimeira de Copenhaga foi assim a oficialização mediática do desvio de riqueza de Ocidente para Oriente. O clássico contemporâneo de David Landes, "A Riqueza e a Pobreza das Nações" (Gradiva), ajuda-nos a perceber o 'porquê' deste fenómeno: nós vemos o tal desvio de poder material, porque, a montante, existiu um desvio da ética de trabalho da Europa para a Ásia. Os asiáticos trabalham mais do que os europeus. Na Europa, a velha ética de trabalho começou a ser desprezada pela cultura dos direitos adquiridos. Em simultâneo, os asiáticos transformaram-se em 'calvinistas' de olhos amendoados.

 Henrique Raposo

Texto publicado na edição do Expresso de 23 de Janeiro de 2010

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desvio da ética de trabalho da Europa para a Ásia?
Paulo Pedroso (seguir utilizador), 2 pontos , 14:14 | Sexta feira, 29 de janeiro de 2010

Será, Henrique, que é esse o cerne da questão? Será mesmo que a "ética protestante" se "transferiu para a Ásia?

Apesar de acreditar que essa é uma parte da questão, não me parece que seja a essencial, nem aquela que mereça maior atenção como factor explicativo para a transferência do eixo de poder para a Ásia.

A Europa corre, efectivamente, o risco de se tornar progressivamente periférica. Um dias destes acordamos e vamos constatar que os planisférios têm a Asia no centro, a Europa e África à esquerda e a América à direita. Já esteve mais longe a perda dessa centralidade. E, obviamente, não me refiro à centralidade cartográfica.

No entanto, julgo que o Henrique erra a sua análise ao colocar a tónica na questão da ética de trabalho. Ética de trabalho podemos dizer que os asiáticos sempre tiveram. São herdeiros de culturas milenares que sempre impuseram essa ética. Assim como a subjugação do indivíduo aos interesses colectivos.

Assim, Henrique, não ocorreu nenhuma transferência de ética. Ela já existia no Oriente. Só estava à espera das necessárias condições materiais (económicas, políticas, sociais, tecnológicas...) para "deitar as garras de fora".

A Europa, pelo contrário, não perdeu a ética de trabalho, principalmente nos países onde é suposto ela ter sido identificada por Weber. É certo que institucionalizámos direitos.

O problema decorre de termos de competir, com todos os nossos direitos, com uma massa de centenas de milhões que os não têm. Só isso!
 
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Um pacto laboral
Toni 2 (seguir utilizador), 2 pontos , 23:33 | Sexta feira, 29 de janeiro de 2010
Os oito países da União Europeia com maior grau de probabilidade de falência são a Letónia, Lituânia, Roménia, Grécia (membro da Zona Euro), Hungria. Bulgária, Irlanda (membro da Zona Euro) e Estónia. Portugal não se encontra neste grupo nem mesmo no de risco médio, situando-se em 41º lugar num conjunto de 63 países acompanhados, com uma probabilidade de falência inferior à da Polónia, Espanha, Itália e Reino Unido.

À escala mundial, a lista dos cinco piores é liderada pela Venezuela, seguida pela Ucrânia, Argentina, Letónia e Islândia. Quanto aos casos mediáticos recentes, o Dubai encontra-se em 6º lugar, a Grécia em 10º e a Irlanda em 18º.

A lista foi, agora, divulgada pelo Global Sovereign Credit Risk Report publicado pela CMA DataVision, que coloca os países de maior risco acima de uma linha de água de 10% de probabilidade de falência (cumulative probability of default, CPD) nos próximos cinco anos e de 150 pontos base mais do que a referência usada pela empresa
 
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Esperando por tempos melhores.
Anthos (seguir utilizador), 1 ponto , 6:01 | Sexta feira, 29 de janeiro de 2010

Dr. Enrico,

quando eu era jovem (há muitos séculos), a economia andava de vento em popa e não se sabia o que fosse o desemprego, que hoje é por certo alarmante e a causa de enormes problemas. Será que não havia a corrupção, escândalos financeiros, que são a regra nos nossos dias e não a exceção, o serviço nacional de emprego recebia só poucas pedidos. Antes de seguir em frente, desejo citar a Bíblia visto que alguns utilizadores deste Fórum o fazem frequente e despropositadamente:
Timóteo 1: 6:10 "Porque o amor ao dinheiro é a raiz de toda a espécie de males".
Nestas palavras há toda a essência da vida e por acaso estou para blasfemar: "Toda a Bíblia". Explicações não são precisas.
Agora voltamos ao nosso discurso. A minha geração queria um mundo melhor, uma honestidade visível, a fraternidade universal e o amor entre a gente.
Conduto, apesar de o que ter dito, eu estou projetado pelo futuro achando que esta é apenas uma parábola descendente. A história é feita de ciclos.

António
Florença - Itália
 
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