O Governo anunciou que vai pedir uma autorização legislativa para um Orçamento "redistributivo".
O Governo tem poderes para chamar ao Orçamento o que quiser: redistributivo, ambicioso, fautor de felicidade, amigável. Mas o Executivo sabe que as palavras são importantes e que se lhe chamasse rectificativo, como toda a gente percebe que ele é, estaria a assumir que falhou nas previsões. Assim, chamando-lhe redistributivo, está a dar ideia de que redistribui alguma coisa. Espanta, até, que não lhe chame Orçamento benemérito, para dar a ideia de que iria beneficiar alguém, mas talvez fique para o ano...
A proposta que está no Parlamento, a pouco mais de um mês do fim do ano, já toda a gente sabia que ia ser necessária. Em Julho já era óbvio que as receitas não chegavam. Mas o Executivo não quis dar o braço a torcer e aguentou enquanto pôde. Agora, inventou um nome.
Há 15 dias, Nicolau Santos titulou assim a sua coluna de opinião neste jornal: 'O que aí vem é dantesco'. Já se vê que se fosse o Governo a fazer o texto usaria outro escritor para ilustrar o futuro. O que aí vem seria, para o Governo, digamos camoniano, por exemplo.
A verdade é que o que aí vem, vem mesmo. E podem chamar-lhe os nomes que quiserem, mas é mau. Pode ser que com palavras bonitas nos anestesiem uns tempos, mas, como disse Abraham Lincoln, se é possível enganar todos por algum tempo, se é possível enganar alguns todo o tempo, não se pode enganar todos durante todo o tempo.
Tratado de Lisboa
Foi boa ideia aproveitar a Cimeira Ibero-Americana para trazer os líderes europeus a Lisboa e assinalar a entrada em vigor do tratado que consagra o nome da cidade.
Portugal cumpre-se, assim, no melhor e no pior da sua História: continua a dar nomes ao mundo e a ser um bom palco para festas. Infelizmente, no que toca à criação de riqueza ainda não apurámos totalmente a nossa capacidade. Mas mantém-se a esperança.
Troika na UE
A Europa podia ser uma potência, pois podia. Mas não é. E quando se trata de escolher líderes, qual é a sua principal preocupação? Arranjar alguém desconhecido.
O senhor Van Rompuy e a baronesa Ashton cumprem assim todos os requisitos. Juntos com Barroso fazem a troika europeia, mas a troika que não manda. A que manda mantém-se a de sempre: o Presidente (da França), a chanceler (da Alemanha) e o primeiro-ministro (do Reino Unido). Não há como manter as tradições...
Texto publicado na edição do Expresso de 21 de Novembro de 2009