Enquanto decorre a investigação sobre as circunstâncias que rodearam a morte de Michael Jackson
, dois factos continuam a salientar-se no meio de outros mais chamativos. Primeiro: Desde logo, quaisquer que sejam as suspeitas ou boatos, a perseguição policial continua a não ser considerada criminal.
Não foram, por enquanto, emitidos mandatos de captura ou feitas acusações formais. Ninguém foi constituído como arguido e embora haja várias agências conduzindo o processo, entre elas dois corpos fortemente armados como são a Drug Enforcement Administration e a polícia de Los Angeles, oficialmente a investigação é só isso, uma procura de factos. Estes poderão, ou não, desencadear um processo incriminatório que terá de ser provado para além da dúvida e, no fim, deliberar as consequências em tribunal de justiça.
Cada etapa da investigação tem sido difícil de concretizar. Conrad Murray
, o médico que se encontrava ao lado de Jackson no momento em que foi feita a chamada telefónica para o serviço as emergências, abandonou Los Angeles, fechou o escritório que tinha em Las Vegas e, como quem só se quer esconder ou pelo menos encontrar um bom porta-voz que lide com a atenção mediática e policial, regressou discretamente ao local de origem, Houston, Texas, onde o seu consultório foi revistado há dias pelas autoridades.
O médico não estava presente no momento em que os agentes da polícia lhe vieram bater à porta. Dr. Murray, aliás, já só fala através do seu advogado, Edward Chertoff, que, por sua vez, só fala através da sua representante legal, Miranda Sevcik. Este estado de coisas tem forçado a polícia de LA a fazer uma espécie de corrida de obstáculos só para chegar à casa da partida e poder progredir numa investigação que ganha ramificações novas todos os dias. Sevcik declarou hoje que, tanto quanto ela sabia, Murray não é considerado suspeito mas tão só testemunha num processo em desenvolvimento.
Caso se confirme que é o acusado principal, a incógnita seguinte é a de saber se o estado vai pedir pena de 3 anos - da qual Murray só teria de cumprir 1 ano e meio atrás das grades, o normal nos casos de homicídio involuntário - ou outra maior que pode ir até aos 15 anos, sentença aplicada a homicídios de segundo grau, quando o acusado tinha o dever de ter salvo a vítima mas não o fez. Conrad Murray, como médico privado que talvez tenha receitado os medicamentos usados, cairia nesta categoria.
Salário sob escrutínio
Pormenor acrescentado hoje e facto número 2: Michael Jackson, além de tratar Murray como família ao ponto de o convidar a ir viver lá para casa, pagava-lhe 150 mil dólares por ano. Mesmo levando em conta que a quantia não era astronómica para uma vedeta como Jackson, e mesmo aceitando que há muitos médicos a ganhar mais, continua a ser uma soma considerável. Havendo julgamento, é possível que um júri olhe para a quantia e deduza que o médico sabia que estava a ser "comprado" para dar ao cantor tudo aquilo que ele lhe pedisse. Nesse caso, um veredicto de culpa é quase certo. Murray continua a ser o foco da investigação.
Sem resultados finais da autópsia um mês passado sobre a morte, tudo parece estar ainda em aberto. A falta de informação concreta tem impedido que se esclareça não só as circunstâcias que precederam a morte mas, também, o tipo de vida que Jackson levava nos últimos anos, aspecto importante para decidir o seu grau de responsabilidade na administração de medicamentos perigosos.
The Mozart Connection
Mas as incertezas não têm impedido a glorificação post mortem. Na Áustria, por ocasião do prémio Save The World, Jermaine Jackson, um dos Jackson que cantou com Michael em início de carreira, referiu que Michael sempre tivera uma inclinação humanitária maravilhosa, tendo passado a vida a olhar apenas para o lado bom das pessoas.
Embora tal descrição seja discutível dado o luxo bizantino e propensão consumista que o cantor cultivou ao longo da sua vida, a consagração austríaca carimba-o como figura excepcional. Vinda de um país que produziu alguma da música mais respeitada, o elogio teve significado especial. A presença de Jermaine Jackson em Viena representa, pelo menos, um indício que que a família quer colocar o legado artístico de Michael num pedestal respeitável, deixando advinhar um esforço familiar concertado no sentido de obter para o filho mais pródigo do clã o estatuto lendário ambicionado ao longo de toda uma vida.