Façam um dia a experiência de convidar um espanhol, culto, pacífico, amigo do seu amigo - um daqueles mesmo impecáveis - para jantar. Caprichem o repasto: de entrada, umas tapinhas de alheira, uns pezinhos de coentrada, uns peixinhos da horta. A acompanhar com um Alvarinho, por exemplo. Invariavelmente, a conversa irá parar ao elogio da cozinha portuguesa. "Qué bien se come en Portugal, hombre!" Sede modestos: referi as excelentes experiências gastronómicas havidas na Galiza, no País Basco, na Andaluzia (esquecei misericordiosamente os horrores passados à mesa castelhana). E sede entusiastas no encómio. Não o demovereis: Portugal é fabuloso na hora de comer.
Passem então ao prato principal: proponho um cabrito assado, ou porque não um bacalhau com natas. Dai asas à vossa imaginação: desde que seja uma refeição com "sustanto", bem portuguesa e que dê azo a um bom tinto, tudo serve. Certamente haverá ainda elogios à nossa culinária, mas o mais provável é que a conversa resvale para os elogios ao nosso país e à nossa cultura. "Me encanta Lisboa!" "Me encanta Oporto!" "Me gusta muchísimo el Alentejo...!" "Me duele el corazón quando escucho al fado!" e por aí adiante.
Na hora da sobremesa, doces conventuais, com muito ovo mole e muito açúcar. A acompanhar com moscatel. Depois, queijo da Serra a acompanhar com vinho do Porto. Finalmente, um café "como no los hay en España" a acompanhar com uma aguardente velha do Douro. Garanto-vos que após este tratamento alcoolo-calórico, o conviva espanhol tão amigo de Portugal, tão encantado com a nossa cultura e as nossas coisas, não deixará de soltar um lamento pela desunião que separou Portugal do resto de Espanha.
Notem que esse lamento não parte de um mau sentimento. Os espanhóis a quem tenho ouvido essa conversa não nos desprezam, não nos odeiam, não nos querem dominar. Eles querem-nos, naquela acepção castelhana do querer. Te quiero é uma forma de amo-te, e eles amam de facto Portugal... como uma maravilhosa parte de Espanha. É que Espanha, meus amigos, quer dizer Península Ibérica. E isto é daquelas coisas que é tão natural a um castelhano como a um português beber água do Luso.
Dir-me-ão os leitores que não se devem levar a sério as palavras de um espanhol alcoolizado. Poderão mesmo objectar que, na tentativa de fazer esta experiência, eu próprio terei ficado alterado. Talvez. Mas asseguro-vos de que estava sóbrio quando li a página 8 do Expresso deste sábado. Descobri nela que o Governo espanhol tinha proposto a criação de um bloco ibérico dentro da União Europeia - uma "relação jurídica convencional sobre uma cooperação estável". Não penso que o governante espanhol que o propôs tivesse bebido. Tampouco a Fundación Alternativas
- cujo vice-presidente afirma que "juntos, Portugal e Espanha são um grande" - é um balcão de taberna.
Mas mesmo sóbrios, governantes e policy makers espanhóis aventam a ideia de um secretariado de coordenação ibérica dentro da UE de forma extremamente séria. E dizem mais: "a ideia de uma união de Espanha e Portugal é inviável num horizonte previsível, mas pode avançar-se na coordenação de posições". Mas avançar-se em que sentido? No tal que é inviável num horizonte previsível? Quem não os conhecer que os compre.
Um patriota mais exaltado poderia fazer disto um pé-de-vento. Não é essa a minha perspectiva. Quem tenha feito a experiência acima proposta sabe que tudo isto é natural, e não é para levar a sério. Os espanhóis são boas pessoas, e quando nos propõem a sua cooperação, estão com certeza bem intencionados. É para o que lhes dá? É. Podia ser pior. Cabe-nos a nós pô-los no sítio. É o que temos feito, de forma mais ou menos delicada, nos últimos séculos. E não há melhor forma de o fazer, no actual contexto de amizade luso-espanhola, do que ter cá o Rei de Espanha no 1º de Dezembro. Esse é outro, aliás, que gosta muito de nós. Um dia ofereço-lhe um jantar para saber até que ponto.