Estamos em plena época de comemorações da queda do muro do Berlim. Haverá na segunda-feira uma grande festa em Berlim e, aqui em Lisboa, já assisti a um acto de várias Embaixadas com testemunhos daqueles dias tão turbulentos. Fala-se muito dos heróis daquele momento, de Valcav Havel e dos seus antecessores, de Walesa a Dubcek que, quando apareceu em frente à multidão em Praga, visto pela primeira vez depois de décadas de exílio interno, só precisou de dizer "Checoslováquia" para pronunciar o fim da dominação soviética.
Mas recordo o nome da pessoa que, mais que qualquer outro, talvez tenha sido a figura mais importante de todo este processo - Mikhail Gorbachev
. Para mim, foi um verdadeiro herói naquele momento. Porquê? Porque no momento da mais alta tensão, quando ninguém sabia qual seria a consequência das manifestações massivas de 4 de Novembro na Alemanha de Leste, foi ele que determinou o rumo da história impedindo as autoridades alemãs de massacrarem os seus próprios cidadãos. Usou o seu poder para canalizar toda a energia e agitação para um final feliz.
Ao fazer isto, Gorbachev não estava a lutar por um fim glorioso - pela independência e liberdade. Dentro do seu próprio país ele estava a perder poder e respeito pelas suas acções. Vê-se hoje - cada país da Europa Central a recordar, e com toda a razão, os nomes dos líderes dos seus movimentos para a liberdade, enquanto Gorbachev aparece hoje apenas como um actor secundário, longe de ser herói no seu país e mais conhecido no Ocidente pela sua participação numa campanha publicitária da Louis Vuitton....
Pergunto-me porque fez Gorbachev o que fez. A meu ver, agiu assim porque conhecia muito bem o sistema soviético e sabia que era insustentável, talvez injustificável. Nisso, vejo um paralelo com Frederik de Klerk, que também percebeu que o regime que sustentou tinha os dias contados e tentou, com êxito e muitas críticas internas, preparar o terreno para um futuro melhor para milhões.
Gorbachev está longe de ser um homem perfeito (os heróis raramente o são). Não foi profeta, nem idealista. Era, e é, um político. Não se deve idealizar as suas motivações. Ele queria manter a União Soviética intacta. Foi só depois do golpe contra ele próprio que os países bálticos recuperaram a independência. Mas, no momento crucial, teve a coragem de transformar convicções em acção, para o bem comum. É notável e animador que uma só pessoa, num momento único, possa ter tanta influência para o bem (infelizmente, às vezes, para o mal também). A queda do Muro de Berlim sem um banho de sangue é uma das histórias mais extraordinárias do século XX.
Então, por estes dias, vamos brindar merecidamente a muita gente na Polónia, Hungria, República Checa, Eslováquia. Mas não vamos esquecer o homem que, no momento da verdade, agiu para o bem. Za vashe zdorovye, Mikhail Gorbachev.